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quinta-feira, 22 de junho de 2017

Crise da meia idade - James Hollis


Texto retirado do livro "A passagem do meio" de James Hollis

Quase toda sensação de crise na meia-idade é provocada pela dor dessa separação. A disparidade entre a concepção interior do eu e a personalidade adquirida torna-se tão grande que o sofrimento não mais pode ser reprimido ou compensado. Ocorre então o que os psicólogos chamam de descompensação. A pessoa continua a atuar a partir de antigas atitudes e estratégias, mas estas já não são eficazes. Os sintomas de aflição da meia-idade devem ser bem recebidos, pois representam não apenas um eu instintivamente firmado debaixo da personalidade adquirida, mas também uma poderosa imposição de renovação. 

O trânsito da passagem do meio ocorre no temível choque entre a personalidade adquirida [principalmente na infância] e as exigências do Si-mesmo. Uma pessoa que passa por essa experiência frequentemente entrará em pânico e dirá: "Não sei mais quem sou". Com efeito, a pessoa que o indivíduo foi está para ser substituída pela pessoa que será. A primeira deve morrer. Não é de causar surpresa que exista essa enorme ansiedade. O indivíduo é intimado, psicologicamente, a morrer para o velho eu para que o novo possa nascer. 

Essa morte e renascimento não é um fim em si mesmo; é uma transição. É preciso passar pela passagem do meio para nos aproximarmos mais do nosso potencial e conquistarmos a vitalidade e a sabedoria do envelhecimento maduro. Por conseguinte, a passagem do meio representa uma intimação interior para que deixemos a vida provisória e avancemos em direção à verdadeira idade adulta, do falso eu para a autenticidade. [...]

[...] a passagem do meio começa com uma espécie de pressão tectônica que vem de baixo para cima. Como as placas da terra que se deslocam, roçam umas nas outras e acumulam a pressão que é expelida sob a forma de terremotos, assim colidem os planos da personalidade. A noção adquirida do eu, com suas percepções e complexos agregados, sua defesa da criança interior, começa a ranger e ringir contra o Si-mesmo, que busca a própria realização.

Essas ondulações sísmicas podem ser dissolvidas através da consciência do ego defensiva, mas a pressão continua a crescer. Invariavelmente, muito antes de a pessoa tornar-se consciente de uma crise os indícios e os sintomas já estão presentes [...]. A partir do ponto de vista terapêutico, os sintomas devem ser bem recebidos, pois eles não apenas servem de flechas que apontam para a ferida, como também exibem uma psique saudável e auto-reguladora em funcionamento.

Jung observou que uma neurose "precisa em última análise ser compreendida como o sofrimento de uma alma que não descobriu seu significado". Essa declaração não sugere que possamos consumar uma via sem sofrimento, e sim que o sofrimento já está sobre nós e somos portanto obrigados a descobrir o seu significado.

Sobre o sacrifício: persona, sombra e Self - Luís Paulo B. Lopes

Texto de Luís Paulo B. Lopes

É como se tivéssemos que sacrificar os ideais mais elevados do homem civilizado, aos quais julgamo-nos eméritos representantes; aquelas virtudes coletivas que pensamos não somente possuir, mas que chegamos a confundir-nos com elas. Concordo com Jung quando afirma que a identificação com a persona é sempre um ato egoísta que tenta tirar alguma vantagem; já que através dela recebemos admiração, segurança, um lugar de valor no mundo. Com isso, ingressamos no paraíso da inconsciência; no alto de um platô sobre nuvens, onde não é possível ver o que há mais abaixo. Tentamos espremer o mundo para que caiba dentro de nossa própria cosmovisão e, assim, projetamos uma imagem do mundo como se este fosse imutável e previsível; ao mesmo tempo, supomos haver descoberto e encarnado o significado último de ser um homem civilizado. Protegidos da insegurança que anda de mãos dadas à eterna impermanência do fluir da vida através do tempo, evitamos cautelosamente a amarga consciência de estarmos perdidos em território misterioso e inexplorado. Livres dos conflitos morais que emergiriam implacáveis caso tivéssemos consciência de que o mal que combatemos no outro é o mal de nosso tempo, do qual estamos imersos até o pescoço. Acreditando cegamente que somos aceitos por inteiro, mesmo quando oferecemos ao mundo nossa face bela e ocultamos a terrível, e assim alienamo-nos da inexorável solidão inerente à condição humana e do abandono irrevogável que nos marca a todos no instante em que nascemos. Em suma, nos protegemos de quem realmente somos ao confundirmo-nos com o tributo que devemos pagar ao coletivo; perdemo-nos de nós mesmos num regozijo paradisíaco ao acreditarmos ser unicamente aquilo que o mundo espera que sejamos. Pois é este paraíso que devemos sacrificar a fim de nos encontrarmos com nós mesmos em nossa dolorosa ambiguidade; é como abrir os braços à dor que nos sustenta, mas da qual fugimos assustados sempre que espreita - a dor de ser. Embora experimentemos este sacrifício como autoimolação, fundamentalmente não se trata de negar a si próprio, mas de negar a sedução paradisíaca de ser inteiramente definido pelo mundo. Eis o paradoxo: ao oferecermo-nos em sacrifício, damos vida a quem somos.

Sobre a angústia: alteridade e o nascer da imagem - Luís Paulo B. Lopes

Texto de Luís Paulo B. Lopes

A angústia é algo que impede o nascimento de uma imagem que tenta vir à luz. Como se a imagem ficasse turva e imperceptível por uma mancha; que cresce na medida em que a imagem se aproxima. Surge quando uma imagem quer se formar mas não consegue; e quando ela finalmente se forma, a angústia desaparece. Tomar consciência da imagem oculta sob a angústia, portanto, envolve permitir seu nascimento, sentir o afeto que carrega, estar com ela e lidar com a responsabilidade ética que ela traz consigo. Permitir o nascimento da imagem depende da aceitação da angústia; de abrir mão da vontade de afastar o mal-estar, assumindo uma postura passiva e receptiva. É preciso abandonar as armas. O eu que aceita torna-se então a terra fértil que pode receber a semente imagética e, o estar com ela é o mesmo que permitir que cresça até se transformar em uma nova atitude que leve em conta o outro rejeitado. Partindo da rejeição, passa pelo suportar, pelo tolerar, até que finalmente nasça uma atitude fraterna. Da ética da exclusão para uma ética da fraternidade imagética. Nesse caminho, transforma-se não somente a imagem e seu afeto, mas também o eu se fortalece através do ganho de flexibilidade. Ampliar a consciência não se refere somente a jogar luz na escuridão, isto é somente uma consequência; o fundamental é uma mudança de atitude diante da imagem, em que sejamos mais capazes de estar abertos ao outro. É isso o que a angústia tenta operar, uma abertura do eu em relação ao inconsciente e à vida. Não se trata de ser capaz de aceitar tudo, muito menos de cumprir com a expectativa do outro, mas é como aceitar o próprio destino.

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Dor da alma e psicoterapia - Roberto Gambini

Texto retirado do livro: A voz e o tempo de Roberto Gambini.

Queria ainda acrescentar que a alma doída adquire uma força, uma radicalidade surpreendente em sua maneira de se expressar e de entender as coisas. É como se, por sofrer, a alma se tornasse ainda mais ousada e mais corajosa nos comentários que tem a fazer sobre este mundo, suas desgraças, verdades e belezas. A dor a torna mais eloquente, mais penetrante, mais surpreendente, e esse seu modo de assim falar, podemos reconhecer em escritores, artistas, pensadores, inovadores de todos os tipos. Não é uma eloquência retórica, não é um uso das palavras ou das emoções usadas para discutir argumentos usuais, mas é como que uma subversão da maneira de se considerar coisas costumeiras.  Parece que a alma, ferida, ao mesmo tempo fica forte naquilo que declara; é como se com isso ganhasse não uma legitimidade, mas espaço, acesso para abordar temas que não costumam ser abordados. Então esse é um dos efeitos desse mistério que procuro formular – e por isso justifica que uma terapia dê valor à dor. Porque poderia ser dito: isso é um viés depressivo da terapia, ou um gostar da dor. O que estou dizendo é exatamente o oposto. É essa dificílima relação com a própria dor ou com a alheia promove inovações. E como venho repetindo, a mim interessam as inovações do conhecimento e do discurso da alma – distinto daquele proferido pelo intelecto e pela razão.

A razão e o intelecto podem ancorar a expressão da alma; mas a origem dessa expressão está nela mesma, e não nos primeiros. Essa força penetrante advém do fato de que só a alma que habitou o Hades consegue lançar luz sobre as obscuridades que a luz da razão não ilumina. Sua luz é outra. É como se a alma que sofreu adquirisse o poder de se iluminar a si mesma, para se revelar. O que ela faz é apenas revelar-se; o resto é com a gente. Quer dizer: a alma somos nós. Mas quando se revela, é o nosso ego, é a nossa consciência, é o nosso humano, demasiadamente humano que tem a tarefa de fazer alguma coisa com o que foi revelado, ou a revelação se perde. A revelação é dada, ela é um dom. Pois ouso dizer que a origem do dom é a dor.

Há uma ideia muito antiga, expressa no mito de Quiron, o Curador Ferido, de que a possibilidade de curar advém da experiência de conhecer a dor. No entanto aqui não estou me referindo especialmente à capacidade de curar, mas àquilo que é produzido pela alma doída: ela produz algo, não se estiola, não fica lamentando eternamente. Algo ocorre na alma ferida. Ela expressa algo, ela passa a iluminar algo. Complemento então: a terapia é uma escuta, não exatamente da fala do paciente, mas do processo transformador da alma doída, do que esta passará a dizer. É preciso um ouvido muito atento para isso, para não se confundirem essas expressões da alma com as oriundas do ego. Elas não são a mesma coisa, e há que se ter um ouvido que ouça essa melodia anímica, porque na verdade são essas manifestações que vão revelar qual é o processo da pessoa na dimensão anímica, objeto este a ser reconhecido e mais estudado. O mais fundo que consigo tocar neste momento é que o trabalho terapêutico tem que ouvir essa matéria fugidia, sem no entanto dirigir o andamento dos passos: são apenas duas pessoas falando, ouvindo e aprendendo a prestar atenção no som das asas batendo.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

O arquétipo do inválido e a clínica psicológica - Guggenbühl-Craig

Texto retirado do livro "Eros de muletas" de Adolf Guggenbühl-Craig

De acordo com a fantasia contemporânea de saúde, devemos nos tornar completos sendo a totalidade entendida no sentido de perfeição: "Seja perfeito..." O defeito mais insignificante, a menor disfunção deve ser curada, removida ou erradicada. Apesar de ter existido um tempo em que um temperamento melancólico era aceito, e até idealizado, hoje melancólicos são diagnosticados como "depressivos", são tranquilizados e medicados a ponto de se tornarem vegetais maravilhosamente contentes. No fundo todos somos conscientes de nossas falhas, nossas fraquezas, nossa invalidez. Ao mesmo tempo reprimimos essa compreensão de todas as maneiras possíveis. Lutamos interminavelmente, insensatamente para manter a ilusão de totalidade ao tentar alcançar a saúde perfeita.

Nossa cegueira quanto ao lugar e a importância do arquétipo do inválido torna-se uma atitude moralista, tendo como deuses máximos a saúde e a totalidade. Não é difícil imaginar o quão devastadora esta atitude é quando se trata daqueles que sofrem de neuroses e desordens psicossomáticas. Sou constantemente surpreendido por um tom de superioridade moral que desliza nas vozes dos psicoterapeutas quando discutem casos desta natureza. Neuróticos e psicossomáticos simplesmente são inferiores; eles não podem ser curados porque eles não o querem ser. Eles não querem mudar; eles não querem crescer. Eles recusam nossos esforços para sua melhora. Eles nem sequer escutam seus sonhos! Como afogados, eles agarram-se a suas resistências, defendendo-se, como vemos, tenazmente contra o terapeuta que está apenas tentando ajudá-los. Tais pessoas, tais pobres e ignorantes almas, merecem apenas nossa atenção quando abraçam nossa fantasia de crescimento/saúde/totalidade (é uma fantasia ou uma fixação ilusória?). Como terapeutas, apenas nos interessamos por eles quando eles querem ser curados.


sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

O trauma e as defesas arquetípicas da alma - Donald Kalsched


Texto retirado do livro "O mundo interior do trauma" de Donald Kalsched

O que os sonhos revelam e o que pesquisas clínicas recentes demonstram é que, quando o trauma atinge a psique em desenvolvimento de uma criança, tem lugar uma fragmentação da consciência na qual as diferentes "partes" (Jung as chamava de psiques fragmentadas ou complexas) se organizam de acordo com certos padrões arcaicos e típicos (arquetípicos), mais comumente díades ou sizígias formadas por "seres" personificados. Tipicamente, uma das partes do ego regressa ao período infantil, e outra parte progride, isto é, cresce rápido demais e se torna precocemente adaptada ao mundo exterior, com frequência como um "falso eu" (Winnicott). A parte da personalidade que progrediu cuida, então, da parte que regrediu. Essa estrutura dual foi independentemente descoberta por clínicos de muitas convicções teóricas diferentes, fato que indiretamente respalda a sua base arquetípica. [...]

Nos sonhos, a parte da personalidade que regrediu é geralmente representada como um eu-criança ou um eu-animal vulnerável, jovem e inocente (não raro feminino) que permanece vergonhosamente oculto. Seja qual for a sua encarnação particular, esse "inocente" remanescente do eu total parece representar um núcleo do espírito pessoal imperecível da pessoa - o que os antigos egípcios chamavam da "alma-Ba", ou a Alquimia, o espírito alado vitalizante do processo de transformação, isto é, Hermes/Mercúrio. Esse espírito sempre foi um mistério, uma essência da individualidade que nunca é totalmente compreendida. É a essência imperecível da personalidade - a que Winnicott se referia como o "Verdadeiro Eu" e que Jung, buscando um conceito que reverenciaria as suas origens transpessoais, chamou de Self. A violação desse núcleo interior da personalidade é inconcebível. Quando outras defesas falham, as defesas arquetípicas não medirão esforços para proteger o Self - chegando mesmo ao ponto de matar a personalidade que abriga esse espírito pessoal (suicídio).

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Tornar-se criança novamente - C. G. Jung

Texto de C. G Jung publicado em "Psicologia e alquimia"

O caminho principia no país das crianças [alusão a análise de uma série de sonhos], isto é, no tempo em que a consciência racional do presente ainda não se separara da alma histórica, do inconsciente coletivo. Esta separação, na verdade, é indispensável, mas conduz a um tal distanciamento da psique pré-histórica nebulosa, que ocorre uma perda do instinto. Isto acarreta uma atrofia da vida instintiva e consequentemente uma desorientação nas situações humanas em geral. A separação mencionada faz com que o "país das crianças" permaneça definitivamente infantil, tornando-se uma fonte perpétua de tendências e impulsos infantis. É evidente que esses intrusos não são bem-vindos pela consciência, que se esforça por reprimi-los. Tal repressão serve apenas para estabelecer um distanciamento maior da origem, agravando a falta de vida instintiva a ponto de tornar-se uma ausência de alma. Como resultado disso, a consciência é interditada pelo infantilismo ou então vê-se obrigada a defender-se constantemente e em vão deste último através de uma senilidade cínica ou mediante uma resignação amarga. É preciso reconhecer, portanto, que apesar do inegável sucesso da atitude racional da consciência hodierna, sob muitos aspectos ela é infantilmente inadequada e, portanto, hostil à vida. Esta, tendo sido dessecada e bloqueada, exige que se busque a fonte. Mas a fonte só será encontrada se a consciência resignar-se a retornar ao "país das crianças" a fim de nele receber, como antes, as diretivas do inconsciente. É infantil não apenas aquele que permanece criança por muito tempo, mas aquele que separando-se da infância pensa que ela não existe mais porque não a vê. Entretanto, quem retorna ao "país das crianças"receia tornar-se infantil, pois não sabe que tudo o que é autenticamente anímico tem uma dupla face: uma voltada para a frente, outra para trás. Ela é ambígua e, portanto, simbólica como toda realidade viva. 

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

A psicoterapia - Luís Paulo B. Lopes

Texto de Luís Paulo B. Lopes

O mergulho no inconsciente não depende de uma postura introspectiva voluntária, como se tivéssemos que nadar para o fundo do mar contra a força do ar em nossos pulmões que insiste em nos levar para a superfície. Ao contrário, o mergulho é mais como se houvesse uma grande pedra amarrada em nossos pés que nos puxa para o fundo apesar de nossos esforços para nos mantermos na superfície. É um processo involuntário que não pode ser interrompido, nem pela mais obstinada força de vontade. A força da pedra que nos puxa para o fundo é infinitamente maior do que a força dos braços do melhor dos nadadores. O inconsciente nos atrai com seu fascínio através das projeções. Faz com que nos movamos no mundo sem nos darmos conta da verdadeira finalidade de "nossas" escolhas. O fato é que muitas das escolhas que pensamos ser nossas, são na verdade de um sem número de outros eus que coabitam nossa totalidade. O eu entretanto tenta tomar posse de tudo que chega à superfície da consciência, e assim acredita que tal ideia é minha, tal escolha é minha, tão percepção é minha, tal forma de ver as coisas é minha, tal estado de espírito é meu, tal emoção é minha, tal desejo é meu, etc. quando muitas vezes são manifestações imediatas da autonomia do inconsciente, nos seduzindo para uma finalidade que nos transcende. Se não desenvolvermos uma atitude religiosa em relação a nosso próprio processo, somos vitimados por um destino coletivo e muitas vezes trágico. Jung define a atitude religiosa através de uma análise etimológica um pouco incomum do termo religio. Comumente considera-se religio como derivado de religare (religar) e entende-se que religião refere-se à religação do homem com Deus. Mas para Jung, religio é derivado de religere (examinar cuidadosamente, examinar de novo, refletir bem), portanto, quando fala em atitude religiosa está falando de uma postura atenta e cuidadosa frente ao próprio processo. A ideia de cultivar a alma, de James Hillman, é uma imagem mais poética que se refere exatamente à mesma coisa. A postura adequada frente ao processo deve ser cuidadosa, atenta e paciente como se estivéssemos cultivando um jardim. As flores nascem a seu próprio tempo e por elas mesmas se o cultivarmos adequadamente. É justamente a atitude religiosa, neste sentido, ou o cultivo da alma, que pode nos salvar do afogamento no fundo do mar durante o mergulho no inconsciente. Assim sendo, estar atento de forma cuidadosa ao processo significa conhecer as imagens da alma. Aqui sim a postura introspectiva voluntária se torna importante; não como forma de mergulhar no inconsciente já que neste caso somos simplesmente tragados, mas como forma de encontrarmos um modo de voltar à superfície através do que encontrarmos no fundo do mar.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

O Arquétipo do Pai para C. G. Jung - Bernardo Souza


Texto de Bernardo Souza
Email para contato: bernardo_souza@msn.com

Na construção da obra de Jung, percebemos a constante presença dos aspectos masculinos e femininos da psique. Além dos conceitos de anima e animus, o autor apresenta uma série de interpretações embasadas na mitologia, como o hierós gamos (casamento sagrado) e a sizígia (motivo da conjunção). Também merecem destaque os estudos dos manuscritos alquímicos, a partir dos quais Jung problematiza a coniunctio (conjunção dos opostos) que, em diversas de suas representações, caracterizam o masculino e o feminino como as imagens de Sol e Lua, Rei e Rainha, para citar alguns exemplos.

O feminino, em sua essência, representa algo de primordial, estando ligado ao estado inconsciente. Portanto, o feminino e o inconsciente são anteriores e dão origem à consciência. Comumente, o masculino é associado ao estado de consciência, estando contido no inconsciente, ao mesmo tempo em que se opõe a ele. Assim como o feminino fica vinculado ao inconsciente e o masculino ao consciente, também ficam o materno e o paterno, que são respectivamente referidos a estas duas instâncias. O poder da inconsciência feminina/materna e seus mistérios provocaram medo nos homens que não os compreendiam. Por isso, ocorre uma reação, em que cabe ao pai organizar em alguma medida a inconsciência materna.

sábado, 17 de janeiro de 2015

O confronto com a sombra - C. G. Jung

 Texto retirado do livro "Psicologia e alquimia" de C. G. Jung

O confronto com a metade obscura da personalidade, com a "sombra", produz-se por si só em toda terapia mais ou menos profunda. Este problema é tão importante quanto o do pecado na Igreja. O conflito aberto é inevitável e doloroso. Já me perguntaram muitas vezes: "Como o senhor lida com isso?" - Eu não faço nada, não posso fazer absolutamente nada. Só posso esperar, com uma certa confiança em Deus, até que o conflito suportado com paciência e coragem produza a solução destinada a essa pessoa, e que eu mesmo não posso prever. No entanto, não permaneço passivo ou inativo, mas ajudo o paciente a compreender tudo o que o inconsciente produz durante o conflito. Acreditem, não se trata de banalidades. Pelo contrário, trata-se das coisas mais significativas com as quais já deparei. O paciente também não permanece inativo, pois deve fazer o que é certo, de acordo com suas forças, a fim de não permitir que a pressão do mal se torne excessiva nele. Assim, necessita da "justificação pelas obras", pois a "justificação pela fé" por si só ainda não ecoou dentro dele, como em tantos outros seres humanos. A "fé" pode substituir às vezes a falta de experiência. Neste caso a ação real se torna indispensável. Cristo acolheu o pecador e não o condenou. A verdadeira imitação de Cristo fará o mesmo, também devemos acolher o pecador que nós mesmos somos. E assim como não acusamos o Cristo de confraternizar com o mal, também não devemos inculpar devido ao amor que sentimos pelo pecador que nós mesmos somos, como se isto representasse um pacto de amizade com o diabo. Melhoramos o outro através do amor e o pioramos através do ódio, o que vale também para nós mesmos. O perigo deste modo de ver equivale ao perigo da imitação de Cristo; o justo, porém, não permite que o surpreendam conversando com publicanos ou prostitutas. Devo no entanto ressaltar que a psicologia não inventou o cristianismo, nem a imitação de Cristo. Desejo que a Igreja liberte a todos do peso de seus pecados, mas a quem ela não puder prestar esse serviço só resta o recurso de curvar-se tanto na imitação de Cristo, a ponto de tomar sobre si a carga da própria cruz. 

sábado, 10 de janeiro de 2015

O trabalho de Kuan Yin no inferno e o paradoxo do Self - C. G. Jung

Texto retirado do livro "Sobre sonhos e transformações" de C. G. Jung

E, no caso do si-mesmo, perguntamo-nos da mesma forma. [Quais valores ele tem?] Então descobrimos que sua extensão para cima é a mesma que para baixo - e isso é um tanto mais sinistro, pois através do si-mesmo entra em nós não apenas o Bem, mas também o Mal. Se um ser humano fosse assim diríamos: "Mas ele se contradiz constantemente, é totalmente confuso!" Agora, neste momento, parece estar lá em cima e no próximo lá embaixo, não dá para entender isso. Como é difícil para as pessoas entenderem que a imagem de Deus é ambivalente. [...]

As culturas asiáticas conseguem compreender isso, conseguem compreender que os deuses se manifestam de modo benevolente e malevolente. Por exemplo, a adorável Kuan Yin. Ao entregar o alimento diário aos espíritos maus do inferno, ela se manifesta na forma de um espírito mal, pois é tão boa que quer evitar assustar os maus espíritos. Imaginem os senhores a Mãe Maria alimentando os maus espíritos no inferno, usando para tal uma pele de animal com um rabo. [Risos] É bem assim, não é?

O si-mesmo é de fato semelhante àquelas xilogravuras japonesas que vi: Embaixo está o inferno e lá Kuan Yin vaga na forma de um terrível fantasma, isto é, que tem um aspecto diabólico. Vaga na forma de um diabo que alimenta, por assim dizer, os maus espíritos. E de sua cabeça sai um fio que vai até as alturas do céu e lá Kuan Yin, muito pequena, está sentada em seu trono na luz prateada da lua, na forma de uma remota recordação. Na realidade agora ela é o demônio malvado. 

[...] através da psicologia do inconsciente sabemos que o si-mesmo é absolutamente opositivo. E de uma forma que simplesmente nos aturde. Percebemos então: Isso é demais para a minha cabeça; e eventualmente podemos ter um sonho muito importante que nos transmite uma verdade absolutamente paradoxal em relação à qual não conseguimos descobrir de forma alguma; Isso se refere a algo diabólico ou à mais alta espiritualidade ou a algo nesse sentido...? É antinômico, e por isso a imagem de Deus é transcendente, pois se furta ao nosso alcance. 

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

O afeto do analista - C. G. Jung

Texto retirado do livro "Sobre sonhos e transformações" de C. G. Jung

Um dia tratei de um caso, era uma médica mais velha, tinha mais ou menos 56 anos e ela me procurou num estado de total Amentia [amência], quer dizer, num estado mental confuso. Então eu disse: "Pelo amor de Deus, o que a senhora fez, o que está acontecendo com a senhora?" Assim veio à tona que ela esteve em uma análise freudiana, onde tinha que ficar deitada no divã, e o analista sentou atrás dela na esperança de não ser atingindo, e simplesmente não reagia. Desse modo, ela começou a fantasiar todo tipo de coisas, tentava chocá-lo, aborrecê-lo, provocar - pelo amor de Deus - qualquer tipo de reação nesse pedaço de pau; e não vinha nenhuma resposta, de modo que ela parecia cada vez mais louca. Por fim, precisou interromper a análise, pois sentia que estava entrando em um estado mental completamente confuso. Mas isch härrgottnochemal [Deus do céu!] - é desumano comportar-se assim! E então ela diz: "Veja, o senhor teve um afeto!" E eu digo: "Claro que tive um afeto. O que a senhora imagina, a senhora acha que sou um pedaço de pau? Não sou, pois, um ser triste e atrofiado de tanta teoria que mal tem reações humanas". Quando tenho um afeto, tenho um afeto! E ocasionalmente também provei isso para as pessoas - de fato - que tenho um afeto! [Risos] Não quero lhes contar o que já aprontei nesse sentido. Mas dessa forma encurtamos uma análise por anos! 

[...] é óbvio que ela vai perder toda orientação se o analista não reage ou quando não diz o que pensa a respeito da situação. Quando alguém vem com um plano maluco onde vemos que isso tudo [...] consiste numa trama para destruí-lo e não dizemos nada, isso é desumano, não é? Pois, por outro lado, ensinamos ao paciente no caso de suas imaginações ativas: Você deve entrar nessas fantasias e não ficar à parte como se fosse um pedaço de pau, e sim participar. E daí o analista não participa, comporta-se exatamente do modo como diz ao paciente que a gente não deve se comportar. E de fato - isso é totalmente estúpido, isso simplesmente revela que o analista não consegue ser natural e, se não consegue ser natural, é melhor ele desistir de antemão.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Sobre a projeção - C. G. Jung

 Texto retirado do livro "Sobre sentimentos e a sombra" de C. G. Jung

Uma projeção significa, por exemplo, que projeto características em alguém ou então encontro características que nem estão lá, que vêm de algum outro lugar, por exemplo, de mim mesmo. [...]

Passamos por uma renovação pessoal somente quando nos assumimos. Entretanto, pessoas que têm como hábito projetar desejam sempre responsabilizar as outras pessoas, como se os outros fossem responsáveis pelas asneiras que cometemos. Por exemplo, alguém acha que a esposa deve tratá-lo de forma diferente, pois ele mesmo se trata de modo estúpido. Assim a esposa deveria fazer a coisa certa! E assim por diante. [...] 

[...] todas as projeções atuam tais como projéteis, projéteis psíquicos. Quando alguém é projetado em nós, é como se fôssemos alcançados por um disparo. O deus é comparável a algo que nos penetra. Um homem, por exemplo, pode ser totalmente desvirtuado por projeções femininas sem saber o que está acontecendo com ele. Uma flecha feminina o atingiu. E o contrário também acontece. Por isso é tão importante sabermos o que nos pertence e o que não nos pertence. Se a senhora em questão com as suas fantasias de Sêmele tivesse a bondade de refletir se de fato é Sêmele, a amante de Zeus e a mãe de um deus [Dioniso], ela rapidamente cairia em si. Mas jamais se pensa sobre isso, apenas se atua, deixa-se acontecer. E é justamente este o perigo. Desse modo naturalmente se formam neuroses, é fácil imaginarmos isso. Imaginem um homem que para sua mulher representa quase um Zeus ou então colega de Zeus ou alguém que está sob suspeita de fazer temporais [...]. Deus do céu, alguém assim em pouco tempo torna-se alvo de mania de grandeza. Caso não reflita sobre, ficará apenas com o efeito disso - de que as pessoas diante dele reagem como se ele fosse o "anticristo" em pessoa. Isso de fato gera um efeito. Isso o modifica. Por isso há muitos homens - com suas respectivas esposas - que através do casamento tornam-se alvos de uma modificação psíquica, em função desses arquétipos que a esposa traz consigo. Et vice versa! [...]. Preciso enfatizar isso sempre de novo. Não é apenas um sexo, e sim, também o outro. Isso envenena a nossa sociedade e as nossas relações pessoais em alto grau, pois é simplesmente algo inadequado. Não se adéqua a nós. Por isso preciso saber quem sou quando desejo me libertar dessas coisas.  Quer dizer, preciso saber que isso não me pertence e que sofro de manias. Possivelmente torno-me alvo de uma dessas mania quando alguém a lança contra mim, me atinge secretamente pelas costas. Através de expectativas desse tipo podemos corromper alguém, precisamente filhos. A mãe, por exemplo, pode corromper o seu filho por completo quando tem expectativas errôneas em relação a ele. Pode "desvirtuá-lo" e isso também pode ser feito com um adulto. Por isso, a análise das projeções é importante. 

Como médico naturalmente não pude me dar o luxo de encenar mitologia grega com os meus pacientes. No lugar disso precisava ficar atento para perceber o que estava sendo projetado. Nesse intuito não poderia também projetar. Quando temos uma profissão dessas, uma profissão como eu a tive, naturalmente projetam toda espécie de coisas em cima de nós. Então somos o salvador e sei lá mais o quê. É de lascar! Por fim ficamos fartos disso. Mas quando não sabemos nada a respeito disso, os efeitos são desastrosos! É regra o fato de os pais, quer seja o pai ou a mãe, desejarem de seus filhos justamente aquilo que eles próprios não fazem. Transferem para eles aquela vida que eles próprios não viveram. É algo inexorável. É uma equação matemática. Vemos muito claramente o efeito que isso gera nos filhos. 

sábado, 27 de dezembro de 2014

O pai devorador - Murray Stein


Texto de Murray Stein. 
Obs: Não tenho certeza sobre a fonte, por isso este texto está sem referência bibliográfica.

A mãe devoradora tornou-se uma realidade arquetípica bastante conhecida no mundo da psicologia profunda. Jung descreve a personalidade devorada pela mãe em seu aspecto neurótico (CW 9,11 § § 20-22); suas formas extremas aparecem como psicoses endógenas, a esquizofrenia e a psicose maníaco-depressiva. Já o arquétipo do pai devorador não é tão familiar. Nesse caso, poderíamos dizer que sua forma extrema seria uma psicose social.

Se o arquétipo paterno tem como um polo o pai guardião de seus filhos e poderosa fortaleza contra as ameaças do mundo exterior, tem como outro o pai devorador, na sua rígida insistência quanto a formas convencionais de pensamento, de sentimento e comportamento. O reflexo fenomenológico desse lado negativo do arquétipo do pai é uma consciência vinculada e submersa em convenções e hábitos, e um respeito ao dever definido pelas normas coletivas prevalecentes. Um dilúvio gástrico de valores, padrões de pensamento, gostos, disposições, atitudes e opiniões da cultura predominante dissolve qualquer traço de experiência individual e de reação espontânea.

A história “A Morte de Ivan Ilitch”, de Leon Tolstoi, constitui um retrato magistral de uma consciência devorada pelo pai. Tolstoi apresenta Ivan como :

"filho de um oficial cuja carreira em Petersburgo, através de vários ministérios e departamentos, foi do tipo que conduz um homem a posições de que, devido ao seu longo tempo de serviço e ao cargo oficial a que chegou, não pode ser dispensado, embora seja óbvio que não sirva para executar nenhum serviço útil, e para quem, em conseqüência, são especialmente criados postos que, embora fictícios, fazem jus a salários nada fictícios, de seis a dez mil rublos, nos quais permanece até a idade avançada". 

(Leon Tolstoi, The Cossacks, Penguin Classics, 1960, pág. 110 ). 

Na história, não se faz menção à mãe de Ivan. Seu pai é claramente uma representação do Senex na forma do velho rei que deveria morrer mas continua a reinar obstinadamente. 

Religiosidade como expressão do inconsciente - C. G. Jung

Texto retirado do livro "Cartas de C. G. Jung" Vol. II.
Carta de Jung enviada a Piero Cogo em 21/09/1955.

Prezado senhor Cogo,

O senhor não pode imaginar, com base numa reportagem de jornal, o que significa quando eu digo que se pode saber sobre Deus, sem precisar fazer o esforço, muitas vezes bastante infrutífero, para crer. [Jung faz alusão a uma entrevista que havia concedido a uma revista italiana onde dizia que "não precisava crer em Deus, mas sabia de sua existência]. Como o senhor sabe sou psicólogo e me ocupo principalmente com a pesquisa do inconsciente. Neste capítulo entra também, entre outras coisas, a questão religiosa. Se quiser entender-me corretamente, deverá conhecer primeiramente os resultados de minha psicologia. Não posso relatá-los numa carta. Sem um conhecimento profundo da psique humana, estas observações, tiradas do contexto, são totalmente incompreensíveis. Não se pode esperar dos jornalistas que eles se preocupem com os funamentos do nosso pensar. 

Do ponto de vista psicológico, a religião é um fenômeno psíquico que existe de modo irracional, assim como o fato de nossa fisiologia ou anatomia.  Se faltar esta função, a pessoa humana, como indivíduo, estará sem equilíbrio, pois a experiência religiosa é expressão da existência e funcionamento do inconsciente. Não é verdade que possamos ter êxito só com a razão e a vontade. Ao contrário, estamos sempre sob o efeito de forças perturbadoras, que atravessam a razão e a vontade, isto é, são mais fortes do que as últimas duas. Por isso, pessoas altamente racionais, e precisamente estas, sofrem de perturbações que não conseguem administrar com a vontade ou a razão. Desde tempos imemoriais, as pessoas designavam como divino ou demoníaco aquilo que sentiram ou experimentaram como sendo mais forte do que elas. Deus é o mais forte delas. Esta definição psicológica de Deus nada tem a ver com a definição dogmático-cristã, mas descreve a experiência de um Outro, muitas vezes numinoso opositor, que coincide de forma impressionante com a "experiência histórica de Deus". Conheci um professor de filosofia que acreditava poder viver bem só com a razão. Mas "Deus" lhe impôs uma fobia de carcinoma, que ele não conseguia superar e que transformou sua vida num tormento. A desgraça foi que ele não soube ser simples o suficiente para admitir que a fobia era mais forte do que sua razão. Tivesse sido capaz de admitir isso, teria encontrado um caminho para submeter-se racionalmente ao mais forte. Mas, em sua soberba, não entendeu o caminho de sua superstição racionalista, o perigo que o ameaçava e o sentido inerente a esta ameaça. A atuação do divino é sempre uma espécie de dominação, não importa a forma que assuma. Nossa razão é um presente maravilhoso ou uma conquista nada desprezível, mas ela só cobre um aspecto da realidade, que também consiste de dados irracionais. As leis da natureza não são axiomáticas, mas apenas probabilidades estatísticas. Mas a realidade, bem como nossa psique, consiste sobretudo de dados irracionais. Por isso é impossível uma mecanização da vida psíquica. Como os primitivos, também nós estamos entregues a um mundo escuro e às suas imprevisíveis possibilidades. Por isso precisamos da religião, ou seja, de cuidadosa atenção aos acontecimentos (religio é derivada de religere, e não de religare) e não de sofismas, supervalorização do intelecto racional [religere = considerar cuidadosamente, examinar de novo, refletir bem; religare = amarrar de novo, religar]. [...]

Com elevada consideração,
(C.G. Jung)

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

O inconsciente coletivo - C. G. Jung

Texto retirado do livro "Cartas de C. G. Jung" Vol. II.
Trecho de carta de Jung enviada ao Pastor Max Frischknecht em 08/02/1946.

Prezado Pastor, 

[...] Li com interesse e prazer seu estudo cuidadoso sobre as visões aterradoras do beato Bruder Klaus e agradeço de coração. Concordo plenamente com seus comentários até o ponto em que levanta a questão sobre o fundamento transcendental da visão. Sua alternativa é "Deus metafísico" ou "o próprio inconsciente" do Bruder Klaus. Este é o caput draconis [cabeça do dragão]! Inadvertida e sub-repticiamente o senhor me imputa uma teoria que venho combatendo há dezenas de anos, isto é, a teoria de Freud. Como se sabe, Freud deriva a "ilusão" religiosa do "próprio" inconsciente do indivíduo, portanto do inconsciente pessoal. Há razões empíricas que contradizem este ponto de vista. Eu as reuni na hipótese do chamado inconsciente coletivo. O inconsciente pessoal caracteriza-se pelo fato de que seus conteúdos são formados pessoalmente e são ao mesmo tempo aquisições individuais que variam de pessoa para pessoa, tendo cada qual o seu "próprio" inconsciente. O inconsciente coletivo, porém, apresenta conteúdos que são formados pessoalmente apenas em grau ínfimo e, no essencial, em grau nenhum; não são aquisições individuais, mas são essencialmente os mesmos em toda parte e não variam de pessoa para pessoa. Este inconsciente é como o ar que é sempre o mesmo em toda parte, que é respirado por todos e a ninguém pertence. Os conteúdos (chamados arquetípicos) são condições prévias ou esquemas da constituição psíquica geral. Eles têm um esse in potentia [ser em potência] e in actu [no ato], mas não in re [como coisa], pois como res [coisas] já não são o que eram, mas tornaram-se conteúdos psíquicos. São em si imperceptíveis, não representáveis (pois antecedem toda representação), em toda parte e "eternamente" os mesmos. Por isso só existe um inconsciente coletivo que é idêntico a si mesmo em toda parte, do qual todo o psíquico recebe sua forma antes de ser personalizado, modificado, assimilado, etc. por influências externas.

Para tornar mais compreensível este conceito um tanto difícil, gostaria de trazer um paralelo da mineralogia, isto é, a chamada estrutura do cristal. Esta estrutura representa o sistema axial do cristal. Na solução-mãe ela é invisível, como se não existisse, mas ela existe, agregando-se primeiramente os íons ao redor dos pontos axiais (ideais) de intersecção e, depois, as moléculas. Há somente uma estrutura do cristal para milhões de cristais da mesma composição química. Nenhum cristal individual pode falar de sua estrutura, pois ela é a única e a mesma precondição de todos (e nenhum deles a realiza perfeitamente!). Ela é a mesma em toda parte e "eternamente".

domingo, 21 de dezembro de 2014

Relatividade do livre arbítrio - C. G. Jung

Texto retirado do livro "Cartas de C. G. Jung" Vol. II.
Cartas de Jung enviada ao Reverendo S.C.V. Bownam em 10/12/1953.

Dear Sir,

O seu problema do liberum arbitrium [livre arbítrio] tem obviamente vários aspectos, que eu não saberia como abordar nos limites de uma carta. Só posso dizer que, até onde a consciência chega, a vontade é entendida como sendo livre, isto é, que o sentimento de liberdade acompanha nossas decisões, não importando se elas são realmente livres ou não. Esta última questão não pode ser decidida empiricamente. Onde a pessoa não está consciente aí obviamente não pode haver liberdade. Através da análise do inconsciente amplia-se o horizonte da consciência a cresce automaticamente o grau de liberdade. Uma consciência plena significaria uma liberdade e responsabilidade igualmente plenas. Se os conteúdos inconscientes que se aproximam da esfera da consciência não foram analisados e integrados, então a esfera da liberdade fica diminuída pelo fato de tais conteúdos serem ativados e ganharem mais influência compulsiva sobre a consciência do que se fossem totalmente inconscientes. Não creio que haja maiores dificuldades nesta linha de abordagem. Parece-me que a verdadeira dificuldade começa com o problema de como lidar com os conteúdos integrados, que antes eram inconscientes. Isto, porém, não pode ser tratado numa carta.

Esperando vê-lo na primavera, sou
Yours sincerely,
(C.G. Jung)

sábado, 20 de dezembro de 2014

Regressão e fascinação arquetípica na neurose e na psicose - C. G. Jung

Texto retirado do livro "Cartas de C. G. Jung" Vol II.
Trecho de carta de Jung enviada ao Dr. John W. Perry em 08/02/1954.

Dear Perry, 

[...] Em primeiro lugar, a regressão que ocorre no processo de renascimento ou integração é em si um fenômeno normal, podendo ser observado também em pessoas que não sofrem de nenhuma psicopatia. No caso de uma constituição esquizóide, observa-se quase o mesmo, apenas com a diferença de que há uma tendência marcante do paciente ficar preso ao material arquetípico. Neste caso, repete-se sempre de novo o processo de renascimento. Esta é a razão por que a esquizofrenia clássica desenvolve condições estereotipadas. Até certo ponto, a experiência é a mesma com indivíduos neuróticos. Isto é assim porque o material arquetípico tem uma estranha influência fascinante que tenta assimilar a pessoa por inteiro. Ela procura identificar-se com alguma das imagens arquetípicas que são características do processo do renascimento. É por isso que os casos esquizofrênicos apresentam um comportamento de certo modo bem infantil. Pode-se observar quase o mesmo em pacientes neuróticos; desenvolvem inflações por conta da identificação com imagens arquetípicas ou desenvolvem um comportamento infantil por conta da identidade com a criança divina. Em todos estes casos a dificuldade real será libertar os pacientes da fascinação (através do material arquetípico). Os casos esquizóides bem como os casos neuróticos repetem muitas vezes sua história pessoal da infância. Isto é um sinal favorável na medida em que é uma tentativa de voltar a crescer no mundo, como eles já o fizeram antes, ou seja, em sua infância. (...)


Via de regra não é preciso levar os pacientes a que revivam suas reminiscências infantis; geralmente eles o fazem por si mesmos, pois é um mecanismo inevitável e, como eu disse, uma tentativa teleológica de crescer novamente. Se observar apenas o material que os pacientes produzem, verá que eles entrarão forçosamente em suas reminiscências, costumes e maneiras infantis e que projetarão especialmente as imagens dos pais. Se houver uma transferência, o senhor ficará envolvido e integrado na atmosfera familiar do paciente. [...] Quando deixamos que o inconsciente siga o seu caminho natural, então podemos estar certos de que virá à tona tudo o que o paciente precisa saber; também podemos estar certos de que tudo o que tiramos do paciente por insistência em bases teóricas não será integrado na personalidade do paciente, ao menos não como valor positivo, mas no máximo como resistência duradoura. Nunca lhe ocorreu que em minha análise pouco se fala de "resistência" [...]?

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Desmistificando os arquétipos e o inconsciente coletivo - C. G. Jung

Texto retirado do livro "Cartas de C. G. Jung" Vol II. 
Carta de Jung enviada ao Professor G.A. van den Bergh von Eysinga.

Dear Sir, 

Antes de mais nada, não sou filósofo e meus conceitos não são filosóficos e abstratos, mas empíricos [...]. O conceito em geral mal compreendido é o de arquétipo, que cobre certos fatos biológicos, mas que não é uma idéia hipostasiada. O "arquétipo" é praticamente sinônimo do conceito biológico de "padrão comportamental" (behaviour pattern). Mas como este designa principalmente fenômenos externos, escolhi o termo "arquétipo" para o "padrão psíquico" (psychic pattern). Não sabemos se o pássaro tecelão contempla uma imagem interna ao seguir um modelo imemorial e hereditário na construção de seu ninho; mas, pelo que sabemos da experiência, nenhum pássaro tecelão inventou seu ninho. É como se a imagem da construção do ninho tivesse nascido com o pássaro. 

Como nenhum animal nasce sem os seus padrões instintivos, não existe razão para supormos que o ser humano tenha nascido sem suas formas específicas de reação fisiológicas e psicológicas. No mundo inteiro os animais da mesma espécie apresentam os mesmos fenômenos instintivos, assim também o ser humano apresenta as mesmas estruturas arquetípicas, onde quer que ele viva. Não há necessidade de ensinar ao animal procedimentos instintivos; também o ser humano possui suas formas psíquicas básicas, que ele repete espontaneamente, sem tê-las aprendido nunca. Na medida em que possui a consciência e a capacidade da introspecção, também recebe a possibilidade de perceber suas estruturas instintivas na forma de imagens arquetípicas. Como é de se esperar, estas representações são praticamente universais (cf., por exemplo, a identidade notável das estruturas xamanistas). Também pode acontecer que surjam de novo e espontaneamente tradições na psique da pessoa, que haviam sido totalmente esquecidas. Este fato atesta a autonomia dos arquétipos. 

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Deus e Imagem de Deus: Psicologia e religião - C. G. Jung

Texto retirado do livro "Cartas de C. G. Jung" Vol. II.
Trecho de carta de Jung enviada ao Pastor W. Niederer em 01/01/1953.

Prezado Pastor!

[...] Meu interesse estava, em primeiro lugar, em entender eu mesmo o sentido da mensagem cristã; em segundo lugar, transmitir este entendimento aos meus pacientes que sentiam uma necessidade religiosa; e, em terceiro lugar, salvar o sentido dos símbolos cristãos em geral.

[...] Critico apenas nossas concepções de Deus. Eu não sei o que Deus é em si. Em minha experiência só há fenômenos psíquicos que, em última análise, são de origem desconhecida, pois a psique em si é irremediavelmente inconsciente. Todos os meus críticos ignoram os limites epistemológicos que eu respeito claramente. Assim como tudo o que percebemos é fenômeno psíquico e, portanto, secundário, o mesmo acontece com toda a experiência interior. Nós deveríamos ser realmente modestos e não imaginar que podemos dizer qualquer coisa de Deus em si. Defrontamo-nos na verdade com enigmas terríveis. 

Devemos estar conscientes de que existe um inconsciente. Eu não ouso formular o que o teólogo faz, mas o que eu faço é tentar tornar as pessoas suficientemente conscientes para que saibam onde podem querer e onde se confrontam com a força da um não-eu. Na medida em que posso observar os efeitos desse não-eu, também é possível para mim fazer afirmações sobre ele. Não tenho nenhum meio cognitivo real (apenas decisões arbitrárias) que me permitem distinguir o não-eu em si incognoscível daquilo que os homens vêm chamando de Deus (ou deuses, etc.) desde tempos imemoriais. Assim, por exemplo, parece-me que o supremo arquétipo do si-mesmo tem um simbolismo idêntico ao da imagem tradicional de Deus. Para mim é incompreensível como se poderia entender tudo isso sem o conhecimento da psicologia do inconsciente ou sem o autoconhecimento. Na psicologia só se entende aquilo que se experimentou ou vivenciou. 

O arquétipo é a última coisa que posso entender do mundo interior. Com isso não se nega nada do que ainda poderia estar ali dentro.