Mostrando postagens com marcador Stanislav Grof. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Stanislav Grof. Mostrar todas as postagens

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Da emergência espiritual à crise espiritual - Satanislav Grof

Texto retirado do livro "A tempestuosa busca do Ser" de Christina Grof e Stanislav Grof.

Às vezes, o processo do despertar espiritual é tão sutil e gradual que é quase imperceptível. Depois de um período de meses ou anos, uma pessoa olha para trás e percebe que houve profundas mudanças na sua compreensão do mundo, dos valores, dos padrões éticos e das estratégias da vida. Essa mudança pode começar pela leitura de um livro que contenha uma mensagem tão clara e convincente que seja impossível ignorá-la. [...]

Outras vezes, a consciência espiritual invade a vida da pessoa na forma de percepções profundas e variadas de certas situações do cotidiano. [...] Para muitas, o ingresso no campo transcendental tem se dado pela arte. 

Nenhuma dessas pessoas pensará novamente que está completamente isolada. Todas tiveram experiências intensas e convincentes que as transportaram para além das restrições de seus corpos físicos e dos conceitos limitados a respeito de si mesmas para uma conexão com algo exterior.

No entanto, quando a emergência espiritual é muito rápida e dramática, esse processo natural torna-se uma crise, e a emergência transforma-se em emergência espiritual. Pessoas que passam por essa crise são bombardeadas por experiências interiores que desafiam abruptamente suas antigas crenças e seu jeito de ser; seu relacionamento com a realidade modifica-se muito depressa. De repente, sentem-se incomodadas em seu antigo modo familiar e podem achar difícil atender às exigências da vida diária. Podem ter grandes problemas em distinguir seu mundo interior visionário do mundo exterior da realidade diária. Fisicamente, parecem experimentar energias vigorosas correndo pelos seus corpos, causando tremores incontroláveis. 

Medrosas e persistentes, as pessoas parecem gastar muito tempo e esforço tentando controlar o que sentem como se fosse um acontecimento interior opressivo. E podem sentir-se impelidas a conversar sobre suas experiências e descobertas com qualquer um que esteja a seu alcance, parecendo fora de contato com a realidade, incoerentes e messiânicas. Porém, quando lhe oferecem compreensão e esteio, são, de modo geral, cooperativas e gratas por terem alguém com quem possam compartilhar sua jornada. [...]


quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

O vício como emergência espiritual - Stanislav Grof

Texto de Stanislav Grof e Christina Grof retirado do livro "Caminhos além do ego" organizado por Roger Walsh e Frances Vaughan.

É possível que para muitas pessoas, por trás da ânsia por drogas ou álcool, esteja a ânsia por transcendência e completude. Se assim for, a dependência de drogas ou álcool, bem como todos os outros vícios, podem ser em muitos casos uma forma de emergência espiritual¹. O vício difere de outras formas de crise transformadora pelo fato de a dimensão espiritual muitas vezes se esconder por trás da óbvia natureza destrutiva e autodestrutiva da doença. Em outras variedades de emergências espirituais, as pessoas defrontam-se com problemas devidos aos estados mentais espirituais ou místicos. Em contraste, ao longo do processo de dependência, muitas dificuldades ocorrem porque a busca de dimensões internas mais profundas não está sendo empreendida.

Os alcoólatras e outros dependentes descrevem sua queda nos abismos do vício como "bancarrota espiritual" ou "doença da alma", e a cura de seu espírito empobrecido como "renascimento". Como diversas emergências espirituais seguem essa mesma trajetória, é possível aprender muitas lições de assistência durante as crises de transformação com os programas bem-sucedidos no tratamento de abuso de álcool e drogas. 

Para muitas pessoas, por trás da ânsia por drogas, álcool e outros tipos de dependência, está a ânsia pelo Eu superior ou Deus. Muitas pessoas que se recuperaram falam de sua busca incansável de algum pedaço desconhecido que faltava em suas vidas descrevendo como se dedicavam a uma busca vã, de substâncias, alimentos, relacionamentos, posses ou posições de poder e destaque numa tentativa de satisfazer uma ânsia insaciável. Em retrospecto, elas reconhecem ter feito uma trágica confusão, levadas a uma percepção errônea que lhes dizia que a resposta estava fora delas mesmas.


quarta-feira, 18 de março de 2009

Uma nova imagem dos seres humanos - Stanislav Grof


As descobertas das últimas décadas sugerem fortemente que a psique não é limitada à biografia pós-natal e ao consciente individual freudiano, e confirma a verdade perene, encontrada em muitas tradições místicas, de que os seres humanos podem ser comensurados com tudo o que existe. As experiências transpessoais e o seu extraordinário potencial certamente atestam esse fato.

A nova imagem dos seres humanos é paradoxal por natureza e envolve dois aspectos complementares. Nas situações diárias abrangendo estados comuns de consciência, poderia ser apropriado pensar nas pessoas como máquinas biológicas. Porém, em estados mentais incomuns também podem demonstrar propriedades de campos infinitos da consciência — transcendendo o tempo, o espaço e a causalidade linear. Essa é a imagem que as tradições místicas têm descrito por milênios. Recentemente, recebeu-se o apoio inesperado da tanatologia, da parapsicologia, da antropologia, das psicoterapias existenciais e da pesquisa psicodélica, e também do trabalho com emergências espirituais.

(...) Aqui nos referimos ao mundo de conhecimento holotrópico (literalmente "caminhar para a totalidade", do grego holos = "todo" e trepein).

Nesse modo de conhecimento podemos vivenciar um amplo espectro de fenômenos; alguns deles são o restabelecimento vivido de eventos passados; outros são seqüências de morte e renascimento, e ainda outros são vários aspectos da dimensão transpessoal. Eles nos dão fortes evidências experienciais de que o mundo da matéria não é sólido, de que todas as suas fronteiras são arbitrárias e de que nós mesmos não somos corpos materiais, mas campos ilimitados de conhecimento. Demonstram também a possibilidade de que o tempo e o espaço newtoniano podem ser transcendidos e sugerem a existência de realidades e seres que não são de natureza material.

Na psiquiatria tradicional, todas as experiências holotrópicas têm sido interpretadas como fenômenos patológicos, apesar de a causa dos processos de doença nunca ser identificada; isto reflete o fato de que o antigo paradigma não tem uma explicação adequada para essas experiências e não foi capaz de dar conta delas de qualquer outro modo. No entanto, o estudo cuidadoso nas experiências holotrópicas demonstra que elas não são produtos patológicos do cérebro; ao contrário, revelam capacidades extraordinárias da psique humana e aspectos importantes da realidade normalmente escondidos da nossa consciência.

Retirado do livro: A tempestuosa busca do Ser; de Stanislav e Christina Grof

O paradigma emergente na ciência ocidental - Stanislav Grof


Os desenvolvimentos revolucionários em várias disciplinas delineiam agora uma visão de mundo que é radicalmente diferente da imagem newtoniana do universo. Algumas das mudanças mais radicais ocorreram na física, a base da ciência mecanicista. Com o advento da teoria da relatividade de Einstein e da física quântica, os conceitos tradicionais de matéria, tempo e espaço foram ultrapassados. O universo físico veio a ser visto como uma trama unificada de eventos paradoxais estatisticamente determinados, na qual o conhecimento e a inteligência criativa desempenham um papel muito importante.


O reconhecimento de que o universo não é um sistema mecânico (...), preparou o terreno para um entendimento da realidade baseado em princípios inteiramente novos. Essa abordagem ficou conhecida como holografia, porque algumas das suas características mais notáveis podem ser demonstradas com o uso de hologramas ópticos como instrumentos conceituais. Os dois cientistas que se tornaram conhecidos por suas contribuições a este novo modo excitante de ver a realidade são o físico David Bohm e o neurocientista Karl Pribram.

Um aspecto do pensamento holográfico particularmente relevante para a nossa discussão é a possibilidade de um relacionamento completamente novo entre as partes e o todo. No sistema holográfico, a informação é distribuída de tal modo que seu todo está contido e é acessível a todas as suas partes. Essa propriedade pode ser demonstrada cortando-se um holograma óptico em muitos pedaços e demonstrando que cada um de seus fragmentos é capaz de reproduzir a imagem toda.

O conceito de "informação distribuída" abre perspectivas inteiramente novas para a compreensão de como as experiências transpessoais podem mediar o acesso direto à informação sobre vários aspectos do universo que permanecem fora dos limites pessoais convencionalmente definidos. Se a pessoa e o cérebro não são entidades isoladas, mas partes integrantes de um universo com propriedades holográficas — se são, de algum modo, microcosmos de um sistema maior —, então é compreensível que possam ter acesso direto e imediato à informação exterior.

(...)

Espiritualidade, religião e a experiência do divino - Stanislav Grof


Para prevenir a má comunicação, gostaríamos de dizer o que entendemos pelo termo "espiritualidade" e em que sentido o usaremos. O termo espiritualidade deve ser reservado para situações que abrangem experiências pessoais de certas dimensões da realidade e que dão à vida de alguém e à existência em geral uma qualidade numinosa. C. G. Jung usou a palavra "numinosa" para descrever uma experiência que parece sagrada, pura e fora do comum. A espiritualidade é algo que caracteriza o relacionamento entre a pessoa e o universo e não requer, necessariamente, uma estrutura formal, um ritual coletivo ou a meditação feita por um sacerdote.

Em contraste, a religião é uma forma de atividade grupal organizada que pode ou não tender para a verdadeira espiritualidade, dependendo do grau em que ela proporciona um contexto para a descoberta pessoal das dimensões numinosas da realidade. Enquanto na origem de todas as grandes religiões estão as revelações visionárias de seus fundadores, profetas e santos, indicando o caminho, em muitos casos, com o passar do tempo, a religião perde a ligação com o seu núcleo vital.

O termo moderno usado para a experiência direta das realidades espirituais é a palavra "transpessoal", que significa transcender o modo usual de perceber e interpretar o mundo desde uma posição de ego individual ou ego corporal. Existe uma disciplina totalmente nova, a psicologia transpessoal, especializada em experiências desse tipo, e suas implicações e descobertas advindas dos estudos transpessoais de consciência são de fundamental importância para o conceito de emergência espiritual.

Os estados envolvendo encontros pessoais com as dimensões numinosas da existência podem ser divididos em duas grandes categorias. Na primeira, estão as experiências do "imanente divino", ou percepções da inteligência divina expressando-se no mundo da realidade diária. Todo tipo de criação — pessoas, animais, plantas e objetos inanimados — parecem estar impregnados pela mesma essência cósmica e pela mesma luz divina. Uma pessoa nesse estado compreende repentinamente que tudo no universo é manifestação e expressão da mesma energia cósmica criativa e que separação e fronteiras são ilusórias.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Desafios conceituais à ciência - Stanislav Grof


Durante toda a história da ciência moderna, gerações de pesquisadores buscaram com grande entusiasmo e determinação os vários grandes caminhos de pesquisa oferecidos pelo paradigma newtoniano-cartesiano descartando prontamente conceitos e observações que teriam questionado algumas das premissas filosóficas básicas partilhadas pela comunidade científica. Muitos cientistas foram tão inteiramente programados por sua educação ou tão arrebatados e impressionados pelo seu uso pragmático, que aceitaram aquele modelo, de maneira literal, como uma descrição exaustiva e correta da realidade. Nessa atmosfera, incontáveis observações de vários campos foram sistematicamente descartadas, suprimidas ou mesmo ridicularizadas, com base em sua incompatibilidade com o pensamento reducionista e mecanicista que, para muitos, tornou-se sinônimo de um enfoque científico. (...)


As extraordinárias conquistas técnicas dessa ciência têm produzido um efeito negativo, apesar de seu potencial para resolver a maior parte dos problemas materiais que afligem a humanidade. Seu sucesso criou um mundo no qual seus maiores trunfos – energia nuclear, foguetes espaciais, laser, computadores e outros instrumentos eletrônicos, e os milagres da química e da bacteriologia modernas – transformaram-se em pesadelo e perigo vital. Como resultado vivemos em um mundo divido (...), perigosamente ameaçado por crises econômicas, poluição industrial (...). Por causa dessa situação mais e mais pessoas questionam a utilidade de um progresso tecnológico precipitado, que não é cuidado nem controlado por indivíduos emocionalmente maduros ou raças suficientemente evoluídas, capazes de manejar, de maneira construtiva, os poderosos instrumentos criados por esse mesmo progresso.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Transformação Individual e o Futuro do Planeta - Stanislav Grof

Nas últimas poucas décadas, tem se tornado cada vez mais claro que a humanidade está enfrentando uma crise de proporções sem precedentes. A ciência moderna desenvolveu medidas efetivas que poderiam resolver a maior parte dos problemas urgentes do mundo atual – combate à maioria das doenças, eliminar a pobreza e a fome, reduzir a quantidade do desperdício industrial e substituir os combustíveis não renováveis por fontes de energia limpa.

Os problemas que permanecem no caminho não são de natureza econômica e tecnológica. A fonte profunda da crise global está dentro da personalidade humana e reflete o nível de evolução de nossa espécie. Por causa das forças não domadas da psique humana, recursos inimagináveis estão sendo desperdiçados no absurdo da corrida armamentista, luta pelo poder e a perseguição de metas como “crescimento ilimitado.” Esses elementos da natureza humana também impedem uma distribuição mais apropriada das riquezas entre as nações e os indivíduos, bem como a reorientação da ênfase puramente política e econômica para as prioridades ecológicas que são essenciais para a manutenção da vida no planeta.

As negociações diplomáticas, as medidas legais e administrativas, as sanções econômicas e sociais, as intervenções militares e outros esforços semelhantes tiveram muito pouco sucesso até o momento. De fato, eles na realidade produziram mais problemas que soluções. Está se tornando cada vez mais clara a razão pela qual tais medidas só poderiam falhar. Em primeiro lugar, é impossível aliviar a crise pela aplicação de estratégias baseadas apenas na ideologia que a criou. Em última análise, a crise global atual é de natureza psico/espiritual. Desse modo é difícil imaginar que ela pudesse ser resolvida sem a transformação interna radical da humanidade e sua elevação a um nível mais alto de maturidade emocional e consciência espiritual.

Considerando o papel de destaque da violência e da ganância na história humana, a possibilidade de transformação da humanidade atual em um conjunto de indivíduos capazes de uma coexistência pacífica com seus companheiros dos sexos masculino e feminino, a despeito das diferenças de cor, raça e convicção política e religiosa, sem falar nas outras espécies, certamente não parece muito plausível. Estamos enfrentando um desafio tremendo de instalar na humanidade profundos valores éticos, sensibilidade para as necessidades dos outros, simplicidade voluntária e um agudo senso para com os imperativos ecológicos. Num primeiro relance, essa tarefa parece ser utópica e não realista e não oferecer nenhuma real esperança.

domingo, 17 de agosto de 2008

O Poder Separador do Mal - Stanislav Grof


Algumas das pessoas que experimentaram um encontro pessoal com o Mal Cósmico tiveram alguns insights interessantes a respeito de sua natureza e função no esquema universal das coisas. Elas viram que esse princípio está intrincadamente entretecido na textura da existência e que ele permeia em formas cada vez mais concretas todos os níveis da criação. Suas várias manifestações são expressões da energia que faz com que as unidades projetadas da consciência sintam-se separadas umas das outras. Ela também as alienam de sua fonte cósmica, a Consciência Absoluta indiferenciada. Desse modo elas são impedidas de perceber sua identidade com sua fonte e também de perceber sua unidade básica de umas com as outras.

Desse ponto de vista, o mal está intimamente ligado ao dinamismo ao qual me referi anteriormente como “dissociação”, “trabalhos em tela” ou “esquecimento”. Desde que a brincadeira divina, o drama cósmico é inimaginável sem protagonistas individuais, sem entidades distintas separadas, a existência do mal é absolutamente essencial para a criação do mundo como o conhecemos. Esse entendimento está basicamente de acordo com a noção encontrada em algumas escrituras místicas cristãs de acordo com as quais o anjo decaído Lúcifer (literalmente, “portador da luz”), como representante das polaridades, é visto como uma figura demiúrgica. Ele leva a humanidade na fantástica viagem ao mundo da matéria. Abordando o problema de uma outra perspectiva podemos dizer que, em última análise, o mal e o sofrimento são baseados numa falsa percepção da realidade, particularmente na crença dos seres sencientes de que são individualidades separadas. Esse insight constitui uma parte essencial da doutrina budista da anatta ou Anātman (não eu).

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

A Perfeita Ilusão: Os Segredos da Identidade Falsa - Stanislav Grof


Nos estados holotrópicos, podemos transcender as fronteiras do ego corporificado com o qual nós usualmente nos identificamos e ter experiências convincentes de nos tornar outras pessoas, animais, plantas e mesmo partes inorgânicas da natureza ou vários seres mitológicos. Descobriremos que a separação e descontinuidade que nós usualmente percebemos dentro da criação é arbitrária e ilusória. E quando todas as fronteiras são dissolvidas e por nós transcendidas, poderemos experienciar a identificação com a própria fonte criativa, seja na forma da Consciência Absoluta seja como o Vazio Cósmico. Nós então descobriremos que nossa identidade real não é o self individual, mas o Self Universal.


Se for verdade que nossa natureza mais profunda é divina e que nós somos idênticos ao princípio criativo do universo, como explicamos a intensidade da crença que somos um corpo físico existindo num mundo material? Qual seria a natureza dessa ignorância fundamental referente à nossa verdadeira identidade, esse véu misterioso do esquecimento que Alan Watts chamou de “tabu de saber quem somos”? (Watts 1966). Como é possível que uma entidade infinita espiritual eterna cria a partir de si mesma e dentro de si mesma um fac-símile virtual de uma realidade tangível povoada por seres sencientes que experienciam a si mesmos como separados de sua fonte e uns dos outros? Como podem os atores do drama cósmico ser iludidos acreditando na existência objetiva de sua realidade ilusória?

domingo, 10 de agosto de 2008

O Impacto do Processo Holotrópico nos Valores Éticos e no Comportamento - Stanislav Grof

Antes de podermos apreciar de modo global as implicações éticas que os profundos e transcendentes insights possam ter em nosso comportamento, devemos levar em consideração alguns fatores adicionais. A exploração experimental que tornam disponíveis tais insights profundos revelam tipicamente a existência em nosso subconsciente de fontes de informações transpessoais, biográficas, e de nossa ganância. O trabalho psicológico realizado sobre tais dados conduz a uma redução significativa de nossa agressividade e a um aumento de nossa tolerância. Também encontramos um amplo espectro de experiências transpessoais nas quais nós nos identificamos com vários aspectos da criação. Isso resulta numa profunda reverência pela vida e empatia por todos os seres sencientes. O mesmo processo através do qual nós estamos descobrindo o vazio das formas e a relatividade dos valores éticos também reduz significativamente nossa predisposição para o comportamento imoral e antisocial e nos ensina a amar e ter compaixão.

Desenvolvemos um novo sistema de valores que não é baseado em normas convencionais, preceitos, mandamentos e medo de punição, mas em nosso conhecimento e compreensão da ordem universal. Percebemos que somos uma parte integrante da criação e que ferindo os outros nós estaríamos ferindo a nós mesmos. Além disso, a auto exploração profunda nos conduz à descoberta experiencial da reencarnação e da lei do carma. Isso nos traz a percepção da possibilidade de sérias repercussões experienciais do comportamento prejudicial, mesmo aqueles que escapam das reações da sociedade.


Platão estava claramente consciente das profundas implicações morais de nossas crenças no que se refere ao prosseguimento da vida após a morte biológica. Em seu livro Leis (Platão, 1961a) ele escreve que Sócrates dizia que a falta de conseqüências postmortem de nossos atos seria “uma dádiva aos perversos.” Nos estágios avançados de desenvolvimento espiritual, a combinação de decréscimo de agressividade, declínio de orientação egocêntrica, sentimento de ser um com os seres sencientes, e as consciências do carma torna-se um fator importante fator que governa nossa conduta no dia-a-dia.

Emergência Espiritual: Para Compreender a Crise de Evolução - Stanislav Grof

"O místico, dotado de talentos inatos..., e seguindo... a instrução de um mestre, entra na água e descobre que sabe nadar; o esquizofrênico, por sua vez, despreparado, sem orientação e sem dotes, caiu nela, ou mergulhou voluntariamente, e está se afogando."
Joseph Campbell, Myths to Live By

Sentimentos de unidade com todo o universo. Visões e imagens de épocas e locais distantes. Sensações de vibrantes correntes de energia percorrendo o corpo, acompanhadas de espasmos e de violentos tremores. Visões de divindades, semideuses e demônios. Vividos vislumbres de luzes brilhantes e das cores do arco-íris. Temores de insanidade, e até de morte, iminente.

Quem passar por esses fenômenos físicos e mentais extremos é rotulado imediatamente de psicótico pela maioria dos ocidentais de hoje. Contudo, um número crescente de pessoas parece estar tendo experiências incomuns semelhantes às descritas acima e, em vez de se perderem sem esperança na insanidade, esses indivíduos costumam sair desses estados mentais extraordinários com um sentido cada vez maior de bem-estar e com um nível superior de funcionamento na vida diária. Em muitos casos, problemas emocionais, mentais e físicos de longa data são curados nesse processo.

Encontramos muitos paralelos desses incidentes nas histórias de vidas de santos, de iogues, místicos e xamãs. Com efeito, a literatura e as tradições religiosas de todo o mundo validam o poder de cura e de transformação desses estados incomuns para as pessoas que passam por eles. Por que, então, as pessoas que têm essas experiências no mundo de hoje são consideradas, quase todas, mentalmente doentes?

Pesquisa da Consciência e Filosofia Eterna - Stanislav Grof

Através dos séculos, essas experiências (transpessoais) e os novos mundos que elas descortinam têm sido objeto de descrições no contexto das filosofias espirituais e tradições místicas, tais como o Vedanta, Hinayãna e Mahayãna Budistas, Taoismo, Sufismo, Gnoticismo, misticismo cristão, Cabala, e muitos outros sistemas espirituais sofisticados. As descobertas de minhas pesquisas e as pesquisas gerais relativas à consciência confirmam, em sua essência, como também amparam a posição de tais ensinamento antigos. Eles estão em completo conflito com os fundamentos mais fundamentais da ciência materialista no que concerne à consciência, natureza humana e a natureza da realidade. Eles claramente indicam que a consciência não é o produto do cérebro, e sim um princípio primário da existência, desempenhando um papel fundamental na criação do mundo fenomenal.

Aquelas pesquisas mudaram radicalmente nossa concepção da psique humana. Elas mostram que, em última análise, a psique de cada um de nós é, guardadas as devidas proporções, essencialmente o reflexo da existência como um todo e, no final das contas, é dotada do mesmo princípio criativo do próprio universo. Tal conclusão, embora seriamente desafiadora da cosmovisão das modernas sociedades tecnológicas, está amplamente de acordo com a imagem da realidade encontrada nas grandes tradições espirituais e místicas do mundo, as quais foram chamadas pelo escritor e filósofo anglo-americano Aldous Huxley de “perennial-philosophy” – filosofia eterna (Huxley 1945).


A pesquisa moderna da consciência tem gerado importantes dados que amparam os princípios básicos da filosofia eterna. Ela tem revelado a existência de um projeto intencional amplo subjacente a toda a criação e tem mostrado que tudo na existência está permeado por uma inteligência superior. À luz dessas novas descobertas, a espiritualidade é definida como um esforço legítimo e importante da vida humana, já que ela reflete a dimensão crucial da psique humana e do esquema universal das coisas. As tradições místicas e as filosofias espirituais do passado têm sido freqüentemente descartadas e mesmo ridicularizadas como sendo “irracionais” e “não-científicas.” Esse é um julgamento desinformado ao mesmo tempo que injustificado e sem nenhuma garantia. Muitos dos grandes sistemas espirituais são produtos de séculos de investigação profunda da psique humana e da consciência que, sob vários aspectos, é semelhante à pesquisa científica.

Profeta do psicodélico - IstoÉ entrevista Grof

Stanislav Grof foi um dos primeiros a conhecer o LSD e agora é o maior guru da psicologia transpessoal

MIRNA GRZICH
.
Com Timothy Leary, recentemente falecido, e Ralph Metzner, da Universidade de Harvard, o psiquiatra húngaro, hoje radicado nos Estados Unidos, Stanislav Grof compõe o triângulo principal da chamada cultura psicodélica dos anos 60 e 70. Fascinado pelos estados de alteração de consciência, ele criou as bases do que se convencionou chamar de psicologia transpessoal. Uma ciência baseada em paradigmas científicos que reconhecem a alma e a relação entre consciência e matéria. Grof acredita que não se pode mais tratar as pessoas como corpos ou mentes. No final de maio, ele esteve em Manaus onde presidiu a 15ª Conferência Internacional de Psicologia Transpessoal e se confessou entusiasmado com o panreligiosismo, a pajelança e os rituais indígenas brasileiros. Nesta entrevista para ISTOÉ conta um pouco de sua história e lembra o primeiro contato com o LSD, então uma droga que se imaginava capaz de provar que a psicose e a esquizofrenia não eram doenças mentais, mas apenas o resultado de alterações químicas.

ISTOÉ - Quais as diferenças entre a psiquiatria convencional e a transpessoal?
Grof - Pessoas que têm um contato direto com a espiritualidade recebem diagnósticos de esquizofrênicos ou psicóticos. A psiquiatria transformou a espiritualidade em algo psicopatológico. Eu não conheço nenhuma religião que não tenha começado com uma experiência visionária dos fundadores, algo que chamaríamos hoje de uma experiência transpessoal. Segundo a psiquiatria, Santa Tereza foi uma histérica, São João da Cruz um esquizofrênico, Maomé um epilético. Eu não estou dizendo que não existem doentes com modificação de consciência que advém de problemas orgânicos. Estou sim falando de experiências onde uma visão de mundo mais ampla chega à consciência. Não como uma distorção de mundo, mas como uma oportunidade de compreender mais sobre o universo e complementar nossa visão.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

A loucura divina - Stanislav Grof

Durante uma emergência espiritual, a mente lógica é, muitas vezes, desviada e os ricos mundos pitorescos da intuição, da inspiração e da imaginação assumem seu lugar. A razão se torna restrita e a verdadeira revelação fica acima do intelecto. Para algumas pessoas, essa incursão nas áreas visionárias pode ser excitante, espontânea e criativa. Mas várias vezes, como isso não envolve os estados da mente considerados normais, muitas pessoas pensam que estão ficando loucas.
.
Quando acontece a dissolução da racionalidade como parte do desenvolvimento espiritual, ocorre o desaparecimento de antigas restrições mentais ou mesquinharias, que são às vezes obrigatórias, antes que uma consciência abrangente e uma inspiração intensificada possam tomar seu lugar. O que, na verdade, está desaparecendo não é a capacidade de raciocinar, embora possa parecer que isso aconteça durante um certo tempo, mas as limitações cognitivas que mantêm a pessoa pressionada e imutável.

Enquanto isso estiver ocorrendo, o pensamento linear será às vezes impossível, e a pessoa sentir-se-á mentalmente agitada quando a consciência for bombardeada com o material liberado pelo inconsciente. Emoções estranhas e perturbadoras tornar-se-ão subitamente acessíveis e a racionalidade outrora familiar será inútil para explicar essas ocorrências. Isso poderá ser um momento crítico muito assustador no desenvolvimento espiritual. Porém, se uma pessoa estiver verdadeiramente comprometida com o processo de emersão, isso será passageiro e poderá ser uma fase de transformação muito importante.

Em The Chasm of Fire, Irina Tweedy conta suas sensações de loucura:

A natureza da experiência mística ou transcendental - Stanislav Grof


As emoções ou sensações associadas às áreas divinas internas são comumente o oposto daquelas que uma pessoa pode encontrar nas regiões escuras. Em vez de dor ou alienação, pode-se descobrir uma sensação abrangente de unidade e interconexão com toda a criação. Em vez de medo, a pessoa pode ser possuída por êxtase, paz e por uma profunda sensação de apoio pelo processo cósmico. Em vez de vivenciar a "loucura" e a confusão, encontra um sentimento de lucidez mental e de serenidade. E, em vez de uma preocupação permanente com a morte, pode entrar em contato com um estado em que se sinta eterna, compreendendo que alguém é, de repente, o corpo e tudo o mais que existe. Devido, em parte, à sua natureza inefável e ilimitada, os domínios divinos são mais difíceis de descrever do que as regiões escuras, embora poetas e místicos de todas as épocas tenham criado metáforas para torná-los próximos. Durante alguns estados espirituais, pode-se entender o meio ambiente comum como uma criação gloriosa da energia divina, cheia de mistério; tudo dentro disso parece fazer parte de uma bela trama interligada. O poeta William Blake capta esse conhecimento do "sagrado" iminente:
.
Para ver um Mundo num Grão de Areia
E um Céu numa Flor Selvagem,
Segure o Infinito na palma da mão
E a Eternidade numa hora.

.
Outras experiências envolvem a revelação de dimensões, das quais não se está consciente na vida diária: elas transcendem o tempo e o espaço e são habitadas por seres celestiais e mitológicos. Essas experiências são freqüentemente acompanhadas por sensações intensas de uma força espiritual que inunda o corpo. As pessoas percebem os domínios místicos sendo permeados por uma essência sagrada ou numinosa e por uma beleza inexplicável, e têm, em geral, visões de jóias preciosas feitas de ouro, brilhantes, com extraordinária radiação, luminescência e luz resplandecente. Em Leaves of Grass, o poeta místico Walt Whitman escreve:
.

Experiências próximas à morte - Stanislav Grof

"Então vi toda a minha vida passada aparecendo em muitas imagens, como num palco a uma certa distância de mim. Vi a mim mesmo como a personagem principal da apresentação. Tudo estava transfigurado como que por uma luz divina e tudo era belo, sem desgraça, sem ansiedade e sem dor. A lembrança de experiências muito trágicas que tive foram claras, mas não me entristeceram. Não senti nenhum conflito; o conflito tinha sido transformado em amor. Pensamentos sublimes e harmoniosos dominavam e uniam as imagens individuais, e como uma música magnífica uma calma divina arrebatou minha alma. Fiquei cada vez mais envolvido por um esplêndido céu azul com delicadas nuvenzinhas rosadas e violetas, precipitei-me para dentro disso tudo sem dor e suavemente e vi então que estava caindo livremente e abaixo de mim havia um campo de neve me esperando... Então, ouvi um baque surdo e minha queda chegara ao fim."

Albert Heim descrevendo sua queda quase fatal nos Alpes suíços

A morte é uma das poucas experiências universais da existência humana. É o acontecimento mais previsível em nossa vida e ainda o mais misterioso. Desde tempos imemoráveis, o fato de nossa mortalidade tem sido uma inesgotável fonte de inspiração para artistas e místicos. A idéia da sobrevivência da consciência após a morte e das jornadas póstumas da alma aparecem no folclore, na mitologia e na literatura espiritual de todos os tempos e culturas. Escrituras sagradas especiais têm sido dedicadas à descrição e discussão das experiências associadas com a morte e com o "morrer".

No passado, os cientistas ocidentais ignoraram o que eles chamavam de "mitologia funerária", considerando isso como um produto da fantasia e da imaginação de pessoas primitivas, incapazes de enfrentar e aceitar o fato da própria mortalidade. Essa situação começou a mudar dramaticamente depois que Elisabeth Kübler-Ross atraiu a atenção dos círculos profissionais para a área da morte e do "morrer" e Raymond Moody publicou Life after Life, seu livro mais vendido. O trabalho de Moody foi baseado nos casos de 150 pessoas que tiveram experiências próximas à morte; isso tornou válidas, em especial, as descrições da morte encontradas nos livros tibetanos e egípcios, no Ars Moriendi europeu e em outros guias semelhantes, de outros tempos e culturas, sobre a morte. Torna-se claro que o processo de "morrer" pode ser associado a uma jornada interior extraordinária, nas áreas transpessoais da psique.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

A Dança Cósmica - Stanislav Grof


Podemos agora tentar resumir os insights dos estados holotrópicos descrevendo a existência como uma aventura experimental fantástica da Consciência Absoluta – uma dança cósmica interminável, uma requintada brincadeira, ou drama divino. Em sua criação, o princípio criativo gera a partir de si mesmo e dentro de si mesmo um número incontável de imagens individuais, unidades fragmentadas de consciência, que assumem vários graus de autonomia e independência relativas. Cada uma delas representa uma oportunidade para uma experiência sem par, um experimento da consciência. Com a paixão de um explorador, de um cientista, de um artista, o princípio criativo realiza todas as experiências concebíveis em suas infindáveis variações e combinações.

Nessa brincadeira cósmica, a Consciência Absoluta encontra a possibilidade de expressar sua riqueza interna, sua abundância, e sua imensa criatividade. Através de suas criações ela experimenta miríades de papéis individuais, encontros, intrincados dramas, e aventuras em todos os níveis imagináveis. Essa peça divina de brincadeiras escalona-se desde as galáxias, sóis, planetas em órbitas, luas passando por plantas, animais, homens, até as moléculas, átomos e partículas nucleares. Dramas adicionais desdobram-se nos reinos arquetípicos e em outras dimensões da existência que não estão disponíveis à nossa percepção, quando em nosso estado de consciência do dia-a-dia.

Em infindáveis ciclos de criação, preservação e destruição a Consciência Absoluta supera os sentimentos de monotonia e tédio transcendentais. A negação temporária e perda de seus estados prístinos alterna com episódios de redescobrimento e recuperação. Os períodos que são cheios de agonia, angústia e desespero são seguidos por episódios de bem-aventurança e enlevo extático. Quando a consciência individual indiferenciada é recuperada depois de ser temporariamente perdida, ela é experimentada como excitante, surpreendente, fresca e nova. A existência da agonia dá uma nova dimensão à experiência do êxtase, o conhecimento da escuridão realça a apreciação da luz, e a extensão da iluminação é diretamente proporcional à profundidade da ignorância prévia. Mais que isso, com cada incursão nos mundos fenomenológicos seguido pelo retorno, a Mente Universal é enriquecida pelas experiências dos diferentes papéis envolvidos. Pela concretização de mais uma parte de seu potencial interno, ela aumenta e aprofunda seu auto conhecimento.

Problemas criados por experiências místicas ou transcendentais - Stanislav Grof


Apesar das qualidades geralmente benevolentes dos estados positivos, há duas áreas de dificuldades que podem surgir quando as pessoas têm experiências místicas: dificuldade para aceitar ou lidar com as áreas transcendentais, e problemas quando as experiências se relacionam com o meio ambiente. Além disso, muitas vezes essas áreas se confundem.

Problemas interiores

Muita gente se sente despreparada para as diretrizes das esferas sagradas. Estes são fatos e estados mentais desconhecidos, que permitem às pessoas penetrar na própria consciência, o que geralmente significa abandonar os conceitos já conhecidos sobre a realidade. Elas também podem sentir que não são suficientemente fortes para suportar o profundo impacto das manifestações físicas e sensoriais de experiências místicas, ou que não estão suficientemente abertas para manipular o seu poder. O professor espiritualista americano Ram Dass compara essas pessoas a uma "torradeira", e sua reação a "ligar o seu plugue em 220 volts em vez de 110, enquanto tudo torra". Recebendo esse enorme insumo físico, mental, emocional e espiritual, elas podem se sentir dominadas e uma reação natural talvez seja a de recuar.Uma resposta semelhante pode ocorrer durante uma forte experiência de luminosidade. Às vezes as pessoas sentem que sua visão está bastante fraca ou demasiado obscurecida para lidar com a intensidade da luz ofuscante com medo de ficar literalmente cegas se permitirem que a experiência prossiga.