Mostrando postagens com marcador Psicologia Traspessoal. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Psicologia Traspessoal. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 5 de março de 2014

Enteógenos e Psicologia transpessoal - Luís Paulo Lopes

Texto de Luís Paulo Lopes publicado originalmente na coluna "Portas da percepção" no blog http://hempadao.com/.

A Psicologia Transpessoal, surgida nos anos 60, era inicialmente considerada como um desdobramento da Psicologia Humanista. No entanto, enquanto a Psicologia Humanista tinha como meta a auto-realização, a Psicologia Transpessoal trazia a ideia de auto-transcendência. Esta diferença é importante e revela um dos pressupostos básicos do pensamento transpessoal, a saber, de que a individualidade é somente um aspecto do Ser. Além da consciência e do inconsciente pessoal, a psique possui outros aspectos que transcendem a individualidade (daí o nome transpessoal); aspectos esses que podem ser vivenciados através de estados incomuns de consciência e cujo potencial heurístico e terapêutico são impressionantes.  Apesar da relação histórica existente entre a Psicologia Humanista e a Transpessoal, em que Abraham Maslow participou ativamente de ambas, é possível afirmar que a Psicologia Reichiana e principalmente a Psicologia Junguiana já haviam construído um substrato sólido que posteriormente influenciaria de forma decisiva as teorias transpessoais. O conceito junguiano de inconsciente coletivo, por exemplo, viria a ser largamente utilizado nas cartografias da psique criadas pelos autores transpessoais, apesar de ter sofrido modificações.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Da emergência espiritual à crise espiritual - Satanislav Grof

Texto retirado do livro "A tempestuosa busca do Ser" de Christina Grof e Stanislav Grof.

Às vezes, o processo do despertar espiritual é tão sutil e gradual que é quase imperceptível. Depois de um período de meses ou anos, uma pessoa olha para trás e percebe que houve profundas mudanças na sua compreensão do mundo, dos valores, dos padrões éticos e das estratégias da vida. Essa mudança pode começar pela leitura de um livro que contenha uma mensagem tão clara e convincente que seja impossível ignorá-la. [...]

Outras vezes, a consciência espiritual invade a vida da pessoa na forma de percepções profundas e variadas de certas situações do cotidiano. [...] Para muitas, o ingresso no campo transcendental tem se dado pela arte. 

Nenhuma dessas pessoas pensará novamente que está completamente isolada. Todas tiveram experiências intensas e convincentes que as transportaram para além das restrições de seus corpos físicos e dos conceitos limitados a respeito de si mesmas para uma conexão com algo exterior.

No entanto, quando a emergência espiritual é muito rápida e dramática, esse processo natural torna-se uma crise, e a emergência transforma-se em emergência espiritual. Pessoas que passam por essa crise são bombardeadas por experiências interiores que desafiam abruptamente suas antigas crenças e seu jeito de ser; seu relacionamento com a realidade modifica-se muito depressa. De repente, sentem-se incomodadas em seu antigo modo familiar e podem achar difícil atender às exigências da vida diária. Podem ter grandes problemas em distinguir seu mundo interior visionário do mundo exterior da realidade diária. Fisicamente, parecem experimentar energias vigorosas correndo pelos seus corpos, causando tremores incontroláveis. 

Medrosas e persistentes, as pessoas parecem gastar muito tempo e esforço tentando controlar o que sentem como se fosse um acontecimento interior opressivo. E podem sentir-se impelidas a conversar sobre suas experiências e descobertas com qualquer um que esteja a seu alcance, parecendo fora de contato com a realidade, incoerentes e messiânicas. Porém, quando lhe oferecem compreensão e esteio, são, de modo geral, cooperativas e gratas por terem alguém com quem possam compartilhar sua jornada. [...]


domingo, 2 de fevereiro de 2014

Outras vidas, outros eus - Roger Woolger

Texto retirado do livro "As várias vidas da alma" de Roger Woolger.

Embora o termo "complexo" tenha se estabelecido há décadas no jargão da psicologia popular, a maioria das pessoas tende a resistir à ideia de que a personalidade é múltipla. Isto pode ser compreensível à luz de histórias impressionantes como The three faces of eva [As três faces de eva] ou filmes hollywoodianos sensacionalistas, como The Exorcist [O Exorcista] ou The Entity [A Entidade]. Nossa resistência à ideia também se deve ao fato de a expressão "personalidade múltipla" ter sido usada quase que exclusivamente como um rótulo clínico para designar um estado de grave dissociação ou divisão da personalidade que beira a loucura.

A esquizofrenia, embora erroneamente confundida com uma divisão ou perturbação da personalidade múltipla, é uma doença onde muitas vozes ou eu imaginários procuram influenciar ou minar a sensação de um paciente ter uma personalidade integrada, uma identidade do ego. (Na verdade, a principal diferença, falando em termos clínicos, entre a esquizofrenia e a personalidade múltipla é que, neste último caso, as diversas formas da personalidade estão rigorosamente compartimentalizadas, cada qual ignorando a outra. Um esquizofrênica, ao contrário, é plena e devastadoramente cônscio, a maior parte do tempo, de que tem muitas vozes ou eus dentro de si, mas não controla nenhum deles.)

Quando o transpessoal é despertado - Piero Ferrucci

Texto retirado do livro "O que podemos vir a ser" de Piero Ferrucci. Introdução ao capítulo intitulado "A patologia do sublime - Riscos e distorções na exploração do supraconsciente". 

Por estranho que possa parecer, quando a inspiração transpessoal começa a se fazer sentir, a personalidade às vezes encontra maneiras de neutralizá-la. O reino da personalidade tem suas própria leis, metas e modos de funcionamento. Em muitos casos, o irromper da energia transpessoal causa uma expansão e uma transformação que são sentidas como benéficas e prazerosas. Em outros, porém, o impacto revolucionário do influxo de novas energias no quadro preexistente pode ser sentido como uma ameaça desconfortável.

Mesmo carregadas de um forte sentido de correção, as inspirações transpessoais têm a necessidade de que a personalidade como um todo se rearranje para ajustar-se aos objetivos e leis do Self. Neste caso, os velhos hábitos devem ser abandonados, os bloqueios psicológicos corajosamente encarados; novas e maiores responsabilidades devem ser assumidas e um ritmo não familiar deve ser adotado - em outras palavras, uma série de grandes mudanças põe-se a caminho.

As mudanças provocadas pela inspiração supraconsciente constituem, é claro, a consequência natural do desenvolvimento geral de uma pessoa. Mais cedo ou mais tarde, a crisálida torna-se borboleta; mas a crisálida pode de alguma forma lutar contra o processo de mudança. Crescer é compreender aquilo que não fomos capazes de conceber, sentir o que nunca sentimos, fazer o que nunca fizemos antes. É ousar o que nunca ousamos. Pode não ser, portanto, necessariamente prazeroso. Obriga-nos a abandonar nossa zona de conforto, a progredir em direção ao desconhecido, a encarar a formidável presença do Self. 

sábado, 25 de janeiro de 2014

Uma esperança para o homem contemporâneo - Pierre Weil

Texto de Pierre Weil retirado do livro "Antologia do Êxtase"

[...] o que se passa no mais íntimo do coração daqueles que atingiram "finalmente" esse nível de conforto típico da época atual, é fácil comprovar que a felicidade que almejavam obter com tal conforto não foi alcançada. Além disso, uma certa nostalgia toma conta de sua alma; a nostalgia de um paraíso perdido que eles confundiram com esse conforto; continuam a buscar fora um estado de consciência que se encontra neles mesmos. "O Reino do Pai está em vós", já dizia Jesus, e Buda insistia em que o fim do sofrimento humano se encontra na descoberta da verdadeira natureza do espírito que está em nós. Esta descoberta é acompanhada de um estado de paz e de uma plenitude indescritíveis. [...]

Ora, é justamente deste estado de Sabedoria primordial e de Amor que o homem contemporâneo mais necessita. Sua neurose fundamental, à qual denominamos de "neurose do paraíso perdido", provém justamente dessa separação resultante de um véu - o véu de Ísis - que separa nosso estado de vigília do estado transpessoal. Da árvore do conhecimento do bem e do mal, isto é, da percepção dualista do real, ele é capaz de regressar à árvore da vida. O paraíso encontra-se em nós mesmos, em cada um de nós, sem exceção. Eis aí a mensagem fundamental que nos dirigem todos aqueles cujos testemunhos dessa experiência capital aqui reproduzimos; experiência que constitui o início de uma autêntica revolução interior e se apóia numa transformação de nosso sistema de valores. Quando se é tocado pela graça dessa vivência, nada mais tem importância senão a Verdade, a Beleza e o Amor.

Uma vez tocado pelo transpessoal, não há mais retorno possível; é preciso seguir adiante e tornar essa experiência cada vez mais permanente, transformando-a numa maneira de ser na própria vida cotidiana. Pouco a pouco, percebemos que não estamos sós, que existe uma Presença que nos guia, através de um aprendizado nem sempre fácil e, por vezes, doloroso. O esforço, todavia, vale a pena, pois frequentemente, após prolongados sofrimentos morais, encontramos o verdadeiro sentido de nossa existência, nossa verdadeira razão de ser neste planeta"

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

O guardião do umbral - Roger Woolger

Texto de Roger Woolger retirado do livro "As várias vidas da alma".

Em cursos dirigidos por minha mulher Jennifer e por mim, lembramos com frequência a nossos alunos da imagem oriental do guardião do portal, um monstro aterrorizante retratado nas entranhas de um templo ou em volta de uma mandala sagrada ou pintura de meditação. Estes guardiães são imagens de nosso próprio medo e estão ali para impedir nossa entrada em reinos para os quais a psique não está preparada. Quer estejamos ou  não conscientes dele, cada um de nós tem seus próprios guardiães dos umbrais interiores que nos impedem de ir fundo demais, rápido demais. O desenvolvimento psíquico e espiritual tem uma economia interior sutil, segundo a qual todo indivíduo caminha de acordo com seu ritmo, dirigido por esses guardiães e guias interiores. Essas figuras ficam muito claras quando conseguimos entender nossos sonhos. [...] Todo trabalho psicológico que penetra nas camadas mais profundas do inconsciente tem muitas probabilidades de trazer à tona emoções fortes, lembranças perturbadoras e material de fantasia. Ao não-iniciado, e mesmo a especialistas, estes conteúdos psíquicos frequentemente avassaladores parecem pertencer ao reino da loucura clássica.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

A música como agente de cura na psicossíntese - Roberto Assagioli

Texto de Roberto Assagioli retirado do livro "Psicossíntese - Manual de princípios e técnicas".

As propriedades curativas da música eram bem conhecidas dos povos do passado, que fizeram considerável uso dela. Entre os povos primitivos, canções e instrumentos musicais, como o tambor e a matraca, eram usados não só com o objetivo de reforçar o efeito de ervas ou drogas mas também como um meio independente de cura. [...]

No século XIX, em virtude da corrente materialista dominante, esse método de psicoterapia foi comparativamente negligenciado. [...] 

No século atual e, em particular, nestas últimas décadas, verificou-se um renovado interesse pela terapia musical que se manifesta principalmente em três campos: como um meio de suavizar a dor; através de aplicação coletiva em hospitais, sobretudo em clínicas psiquiátricas, com a finalidade de produzir efeitos tônicos ou calmantes nos pacientes; e como um meio de terapia ocupacional. 

Uma terapia musical verdadeiramente científica e, em especial, suas aplicações individuais - notadamente aquelas que visam a cura de problemas específicos em casos particulares - devem basear-se num conhecimento preciso dos vários elementos de que a música se compõe e do efeito que cada um desses elementos produzi sobre as funções fisiológicas e as condições psicológicas. [...]


O vício como emergência espiritual - Stanislav Grof

Texto de Stanislav Grof e Christina Grof retirado do livro "Caminhos além do ego" organizado por Roger Walsh e Frances Vaughan.

É possível que para muitas pessoas, por trás da ânsia por drogas ou álcool, esteja a ânsia por transcendência e completude. Se assim for, a dependência de drogas ou álcool, bem como todos os outros vícios, podem ser em muitos casos uma forma de emergência espiritual¹. O vício difere de outras formas de crise transformadora pelo fato de a dimensão espiritual muitas vezes se esconder por trás da óbvia natureza destrutiva e autodestrutiva da doença. Em outras variedades de emergências espirituais, as pessoas defrontam-se com problemas devidos aos estados mentais espirituais ou místicos. Em contraste, ao longo do processo de dependência, muitas dificuldades ocorrem porque a busca de dimensões internas mais profundas não está sendo empreendida.

Os alcoólatras e outros dependentes descrevem sua queda nos abismos do vício como "bancarrota espiritual" ou "doença da alma", e a cura de seu espírito empobrecido como "renascimento". Como diversas emergências espirituais seguem essa mesma trajetória, é possível aprender muitas lições de assistência durante as crises de transformação com os programas bem-sucedidos no tratamento de abuso de álcool e drogas. 

Para muitas pessoas, por trás da ânsia por drogas, álcool e outros tipos de dependência, está a ânsia pelo Eu superior ou Deus. Muitas pessoas que se recuperaram falam de sua busca incansável de algum pedaço desconhecido que faltava em suas vidas descrevendo como se dedicavam a uma busca vã, de substâncias, alimentos, relacionamentos, posses ou posições de poder e destaque numa tentativa de satisfazer uma ânsia insaciável. Em retrospecto, elas reconhecem ter feito uma trágica confusão, levadas a uma percepção errônea que lhes dizia que a resposta estava fora delas mesmas.


terça-feira, 21 de janeiro de 2014

A cartografia da psique na psicossíntese - Roberto Assagioli

Texto retirado do livro "Psicossíntese - Manual de princípios e técnicas" de Roberto Assagioli.

[...] Se reunirmos os fatos comprovados, as contribuições positivas e bem autenticadas e as interpretações bem fundamentadas, ignorando os exageros e as superestruturas teóricas das várias escolas, chegamos em uma concepção pluridimensional da personalidade humana que, embora longe de perfeita ou final, é, pensamos nós, mais abrangente e está mais próxima da realidade do que as formulações anteriores. 

Para ilustrar tal concepção da constituição do ser humano em sua realidade viva e concreta, o seguinte diagrama pode ser útil. Trata-se, é claro, de uma representação grosseira e elementar que só pode oferecer um quadro estrutural, estático, quase "anatômico", de nossa constituição interna, ao mesmo tempo que deixa de fora o seu aspecto dinâmico, que é o mais importante e essencial. Mas, neste caso, como em toda a ciência, passos graduais devem ser dados e aproximações progressivas deve ser feitas. Quando se lida com uma realidade tão plástica e tão esquiva quanto a nossa vida psicológica é importante não perder de vista as linhas principais e as diferenças fundamentais; caso contrário, a multiplicidade de detalhes é suscetível de obscurecer o quadro, como um todo, e de impedir que nos apercebamos do significado, propósito e valor de cada uma de suas partes componentes. 

Com estas reservas e restrições, o mapa é o seguinte:

sábado, 18 de janeiro de 2014

Uma profusão de vidas: a clínica das subpersonalidades - Piero Ferrucci

Texto de Pierro Ferrucci (psicossíntese) retirado do livro "O que podemos vir a ser".

Uma das mais danosas ilusões que podem nos enredar é provavelmente a crença de que somos seres indivisíveis, imutáveis, totalmente consistentes. Mas, descobrir que o contrário é verdade está entre as primeiras tarefas - e possivelmente surpresas - que nos confrontam na aventura de nossa psicossíntese.

Podemos facilmente reconhecer nossa real multiplicidade através da constatação de quão frequentemente mudamos nossa perspectiva geral, mudando nosso modelo de universo com a mesma facilidade com que mudamos de roupa. Assim sendo, a vida pode nos parecer, em algum momento, como uma rotina, uma dança, uma corrida, uma aventura, um pesadelo, um enigma, um carrocel etc. 

Nossos vários modelos de universo colorem nossa percepção e influenciam nosso jeito de ser. E, para cada um deles, desenvolvemos uma auto-imagem e um conjunto de posturas corporais, gestos, sentimentos, comportamentos, palavras, hábitos e crenças. Essa constelação de elementos constitui, em si mesma, um tipo de personalidade miniatura, ou como passaremos a chamá-la, uma subpersonalidade.

As subpersonalidades são satélites psicológicos, coexistindo como uma profusão de vidas dentro da média global de nossa personalidade. Cada subpersonalidade tem um estilo e uma motivação próprios, frequentemente não similares aos das outras. Diz o poeta português Fernando Pessoa, "Em cada esquina de minh´alma, há um altar para um deus diferente".


Em cada um de nós há uma multidão. Pode haver o rebelde e o intelectual, a sedutora e a dona de casa, o sabotador e o esteta, o organizador e o bon vivant - cada qual com sua própria mitologia e, todos mais ou menos confortavelmente agrupados numa só pessoa. Com frequência, estão longe de estar em paz uns com os outros. Como escreveu Assagioli, "Nós não somos unificados; frequentemente sentimos que somos, porque não temos diversos corpos e diversos membros, porque usualmente uma mão não bate na outra. Mas metaforicamente, isto é exatamente o que de fato acontece dentro de nós. Muitas subpersonalidades estão continuamente envolvidas numa rixa tumultuada: impulsos, desejos, princípios, aspirações estão engajados numa luta incessante". [...]

quarta-feira, 18 de março de 2009

Uma nova imagem dos seres humanos - Stanislav Grof


As descobertas das últimas décadas sugerem fortemente que a psique não é limitada à biografia pós-natal e ao consciente individual freudiano, e confirma a verdade perene, encontrada em muitas tradições místicas, de que os seres humanos podem ser comensurados com tudo o que existe. As experiências transpessoais e o seu extraordinário potencial certamente atestam esse fato.

A nova imagem dos seres humanos é paradoxal por natureza e envolve dois aspectos complementares. Nas situações diárias abrangendo estados comuns de consciência, poderia ser apropriado pensar nas pessoas como máquinas biológicas. Porém, em estados mentais incomuns também podem demonstrar propriedades de campos infinitos da consciência — transcendendo o tempo, o espaço e a causalidade linear. Essa é a imagem que as tradições místicas têm descrito por milênios. Recentemente, recebeu-se o apoio inesperado da tanatologia, da parapsicologia, da antropologia, das psicoterapias existenciais e da pesquisa psicodélica, e também do trabalho com emergências espirituais.

(...) Aqui nos referimos ao mundo de conhecimento holotrópico (literalmente "caminhar para a totalidade", do grego holos = "todo" e trepein).

Nesse modo de conhecimento podemos vivenciar um amplo espectro de fenômenos; alguns deles são o restabelecimento vivido de eventos passados; outros são seqüências de morte e renascimento, e ainda outros são vários aspectos da dimensão transpessoal. Eles nos dão fortes evidências experienciais de que o mundo da matéria não é sólido, de que todas as suas fronteiras são arbitrárias e de que nós mesmos não somos corpos materiais, mas campos ilimitados de conhecimento. Demonstram também a possibilidade de que o tempo e o espaço newtoniano podem ser transcendidos e sugerem a existência de realidades e seres que não são de natureza material.

Na psiquiatria tradicional, todas as experiências holotrópicas têm sido interpretadas como fenômenos patológicos, apesar de a causa dos processos de doença nunca ser identificada; isto reflete o fato de que o antigo paradigma não tem uma explicação adequada para essas experiências e não foi capaz de dar conta delas de qualquer outro modo. No entanto, o estudo cuidadoso nas experiências holotrópicas demonstra que elas não são produtos patológicos do cérebro; ao contrário, revelam capacidades extraordinárias da psique humana e aspectos importantes da realidade normalmente escondidos da nossa consciência.

Retirado do livro: A tempestuosa busca do Ser; de Stanislav e Christina Grof

O paradigma emergente na ciência ocidental - Stanislav Grof


Os desenvolvimentos revolucionários em várias disciplinas delineiam agora uma visão de mundo que é radicalmente diferente da imagem newtoniana do universo. Algumas das mudanças mais radicais ocorreram na física, a base da ciência mecanicista. Com o advento da teoria da relatividade de Einstein e da física quântica, os conceitos tradicionais de matéria, tempo e espaço foram ultrapassados. O universo físico veio a ser visto como uma trama unificada de eventos paradoxais estatisticamente determinados, na qual o conhecimento e a inteligência criativa desempenham um papel muito importante.


O reconhecimento de que o universo não é um sistema mecânico (...), preparou o terreno para um entendimento da realidade baseado em princípios inteiramente novos. Essa abordagem ficou conhecida como holografia, porque algumas das suas características mais notáveis podem ser demonstradas com o uso de hologramas ópticos como instrumentos conceituais. Os dois cientistas que se tornaram conhecidos por suas contribuições a este novo modo excitante de ver a realidade são o físico David Bohm e o neurocientista Karl Pribram.

Um aspecto do pensamento holográfico particularmente relevante para a nossa discussão é a possibilidade de um relacionamento completamente novo entre as partes e o todo. No sistema holográfico, a informação é distribuída de tal modo que seu todo está contido e é acessível a todas as suas partes. Essa propriedade pode ser demonstrada cortando-se um holograma óptico em muitos pedaços e demonstrando que cada um de seus fragmentos é capaz de reproduzir a imagem toda.

O conceito de "informação distribuída" abre perspectivas inteiramente novas para a compreensão de como as experiências transpessoais podem mediar o acesso direto à informação sobre vários aspectos do universo que permanecem fora dos limites pessoais convencionalmente definidos. Se a pessoa e o cérebro não são entidades isoladas, mas partes integrantes de um universo com propriedades holográficas — se são, de algum modo, microcosmos de um sistema maior —, então é compreensível que possam ter acesso direto e imediato à informação exterior.

(...)

Espiritualidade, religião e a experiência do divino - Stanislav Grof


Para prevenir a má comunicação, gostaríamos de dizer o que entendemos pelo termo "espiritualidade" e em que sentido o usaremos. O termo espiritualidade deve ser reservado para situações que abrangem experiências pessoais de certas dimensões da realidade e que dão à vida de alguém e à existência em geral uma qualidade numinosa. C. G. Jung usou a palavra "numinosa" para descrever uma experiência que parece sagrada, pura e fora do comum. A espiritualidade é algo que caracteriza o relacionamento entre a pessoa e o universo e não requer, necessariamente, uma estrutura formal, um ritual coletivo ou a meditação feita por um sacerdote.

Em contraste, a religião é uma forma de atividade grupal organizada que pode ou não tender para a verdadeira espiritualidade, dependendo do grau em que ela proporciona um contexto para a descoberta pessoal das dimensões numinosas da realidade. Enquanto na origem de todas as grandes religiões estão as revelações visionárias de seus fundadores, profetas e santos, indicando o caminho, em muitos casos, com o passar do tempo, a religião perde a ligação com o seu núcleo vital.

O termo moderno usado para a experiência direta das realidades espirituais é a palavra "transpessoal", que significa transcender o modo usual de perceber e interpretar o mundo desde uma posição de ego individual ou ego corporal. Existe uma disciplina totalmente nova, a psicologia transpessoal, especializada em experiências desse tipo, e suas implicações e descobertas advindas dos estudos transpessoais de consciência são de fundamental importância para o conceito de emergência espiritual.

Os estados envolvendo encontros pessoais com as dimensões numinosas da existência podem ser divididos em duas grandes categorias. Na primeira, estão as experiências do "imanente divino", ou percepções da inteligência divina expressando-se no mundo da realidade diária. Todo tipo de criação — pessoas, animais, plantas e objetos inanimados — parecem estar impregnados pela mesma essência cósmica e pela mesma luz divina. Uma pessoa nesse estado compreende repentinamente que tudo no universo é manifestação e expressão da mesma energia cósmica criativa e que separação e fronteiras são ilusórias.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Desafios conceituais à ciência - Stanislav Grof


Durante toda a história da ciência moderna, gerações de pesquisadores buscaram com grande entusiasmo e determinação os vários grandes caminhos de pesquisa oferecidos pelo paradigma newtoniano-cartesiano descartando prontamente conceitos e observações que teriam questionado algumas das premissas filosóficas básicas partilhadas pela comunidade científica. Muitos cientistas foram tão inteiramente programados por sua educação ou tão arrebatados e impressionados pelo seu uso pragmático, que aceitaram aquele modelo, de maneira literal, como uma descrição exaustiva e correta da realidade. Nessa atmosfera, incontáveis observações de vários campos foram sistematicamente descartadas, suprimidas ou mesmo ridicularizadas, com base em sua incompatibilidade com o pensamento reducionista e mecanicista que, para muitos, tornou-se sinônimo de um enfoque científico. (...)


As extraordinárias conquistas técnicas dessa ciência têm produzido um efeito negativo, apesar de seu potencial para resolver a maior parte dos problemas materiais que afligem a humanidade. Seu sucesso criou um mundo no qual seus maiores trunfos – energia nuclear, foguetes espaciais, laser, computadores e outros instrumentos eletrônicos, e os milagres da química e da bacteriologia modernas – transformaram-se em pesadelo e perigo vital. Como resultado vivemos em um mundo divido (...), perigosamente ameaçado por crises econômicas, poluição industrial (...). Por causa dessa situação mais e mais pessoas questionam a utilidade de um progresso tecnológico precipitado, que não é cuidado nem controlado por indivíduos emocionalmente maduros ou raças suficientemente evoluídas, capazes de manejar, de maneira construtiva, os poderosos instrumentos criados por esse mesmo progresso.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Transformação Individual e o Futuro do Planeta - Stanislav Grof

Nas últimas poucas décadas, tem se tornado cada vez mais claro que a humanidade está enfrentando uma crise de proporções sem precedentes. A ciência moderna desenvolveu medidas efetivas que poderiam resolver a maior parte dos problemas urgentes do mundo atual – combate à maioria das doenças, eliminar a pobreza e a fome, reduzir a quantidade do desperdício industrial e substituir os combustíveis não renováveis por fontes de energia limpa.

Os problemas que permanecem no caminho não são de natureza econômica e tecnológica. A fonte profunda da crise global está dentro da personalidade humana e reflete o nível de evolução de nossa espécie. Por causa das forças não domadas da psique humana, recursos inimagináveis estão sendo desperdiçados no absurdo da corrida armamentista, luta pelo poder e a perseguição de metas como “crescimento ilimitado.” Esses elementos da natureza humana também impedem uma distribuição mais apropriada das riquezas entre as nações e os indivíduos, bem como a reorientação da ênfase puramente política e econômica para as prioridades ecológicas que são essenciais para a manutenção da vida no planeta.

As negociações diplomáticas, as medidas legais e administrativas, as sanções econômicas e sociais, as intervenções militares e outros esforços semelhantes tiveram muito pouco sucesso até o momento. De fato, eles na realidade produziram mais problemas que soluções. Está se tornando cada vez mais clara a razão pela qual tais medidas só poderiam falhar. Em primeiro lugar, é impossível aliviar a crise pela aplicação de estratégias baseadas apenas na ideologia que a criou. Em última análise, a crise global atual é de natureza psico/espiritual. Desse modo é difícil imaginar que ela pudesse ser resolvida sem a transformação interna radical da humanidade e sua elevação a um nível mais alto de maturidade emocional e consciência espiritual.

Considerando o papel de destaque da violência e da ganância na história humana, a possibilidade de transformação da humanidade atual em um conjunto de indivíduos capazes de uma coexistência pacífica com seus companheiros dos sexos masculino e feminino, a despeito das diferenças de cor, raça e convicção política e religiosa, sem falar nas outras espécies, certamente não parece muito plausível. Estamos enfrentando um desafio tremendo de instalar na humanidade profundos valores éticos, sensibilidade para as necessidades dos outros, simplicidade voluntária e um agudo senso para com os imperativos ecológicos. Num primeiro relance, essa tarefa parece ser utópica e não realista e não oferecer nenhuma real esperança.

domingo, 17 de agosto de 2008

O Poder Separador do Mal - Stanislav Grof


Algumas das pessoas que experimentaram um encontro pessoal com o Mal Cósmico tiveram alguns insights interessantes a respeito de sua natureza e função no esquema universal das coisas. Elas viram que esse princípio está intrincadamente entretecido na textura da existência e que ele permeia em formas cada vez mais concretas todos os níveis da criação. Suas várias manifestações são expressões da energia que faz com que as unidades projetadas da consciência sintam-se separadas umas das outras. Ela também as alienam de sua fonte cósmica, a Consciência Absoluta indiferenciada. Desse modo elas são impedidas de perceber sua identidade com sua fonte e também de perceber sua unidade básica de umas com as outras.

Desse ponto de vista, o mal está intimamente ligado ao dinamismo ao qual me referi anteriormente como “dissociação”, “trabalhos em tela” ou “esquecimento”. Desde que a brincadeira divina, o drama cósmico é inimaginável sem protagonistas individuais, sem entidades distintas separadas, a existência do mal é absolutamente essencial para a criação do mundo como o conhecemos. Esse entendimento está basicamente de acordo com a noção encontrada em algumas escrituras místicas cristãs de acordo com as quais o anjo decaído Lúcifer (literalmente, “portador da luz”), como representante das polaridades, é visto como uma figura demiúrgica. Ele leva a humanidade na fantástica viagem ao mundo da matéria. Abordando o problema de uma outra perspectiva podemos dizer que, em última análise, o mal e o sofrimento são baseados numa falsa percepção da realidade, particularmente na crença dos seres sencientes de que são individualidades separadas. Esse insight constitui uma parte essencial da doutrina budista da anatta ou Anātman (não eu).

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

A Perfeita Ilusão: Os Segredos da Identidade Falsa - Stanislav Grof


Nos estados holotrópicos, podemos transcender as fronteiras do ego corporificado com o qual nós usualmente nos identificamos e ter experiências convincentes de nos tornar outras pessoas, animais, plantas e mesmo partes inorgânicas da natureza ou vários seres mitológicos. Descobriremos que a separação e descontinuidade que nós usualmente percebemos dentro da criação é arbitrária e ilusória. E quando todas as fronteiras são dissolvidas e por nós transcendidas, poderemos experienciar a identificação com a própria fonte criativa, seja na forma da Consciência Absoluta seja como o Vazio Cósmico. Nós então descobriremos que nossa identidade real não é o self individual, mas o Self Universal.


Se for verdade que nossa natureza mais profunda é divina e que nós somos idênticos ao princípio criativo do universo, como explicamos a intensidade da crença que somos um corpo físico existindo num mundo material? Qual seria a natureza dessa ignorância fundamental referente à nossa verdadeira identidade, esse véu misterioso do esquecimento que Alan Watts chamou de “tabu de saber quem somos”? (Watts 1966). Como é possível que uma entidade infinita espiritual eterna cria a partir de si mesma e dentro de si mesma um fac-símile virtual de uma realidade tangível povoada por seres sencientes que experienciam a si mesmos como separados de sua fonte e uns dos outros? Como podem os atores do drama cósmico ser iludidos acreditando na existência objetiva de sua realidade ilusória?

domingo, 10 de agosto de 2008

O Impacto do Processo Holotrópico nos Valores Éticos e no Comportamento - Stanislav Grof

Antes de podermos apreciar de modo global as implicações éticas que os profundos e transcendentes insights possam ter em nosso comportamento, devemos levar em consideração alguns fatores adicionais. A exploração experimental que tornam disponíveis tais insights profundos revelam tipicamente a existência em nosso subconsciente de fontes de informações transpessoais, biográficas, e de nossa ganância. O trabalho psicológico realizado sobre tais dados conduz a uma redução significativa de nossa agressividade e a um aumento de nossa tolerância. Também encontramos um amplo espectro de experiências transpessoais nas quais nós nos identificamos com vários aspectos da criação. Isso resulta numa profunda reverência pela vida e empatia por todos os seres sencientes. O mesmo processo através do qual nós estamos descobrindo o vazio das formas e a relatividade dos valores éticos também reduz significativamente nossa predisposição para o comportamento imoral e antisocial e nos ensina a amar e ter compaixão.

Desenvolvemos um novo sistema de valores que não é baseado em normas convencionais, preceitos, mandamentos e medo de punição, mas em nosso conhecimento e compreensão da ordem universal. Percebemos que somos uma parte integrante da criação e que ferindo os outros nós estaríamos ferindo a nós mesmos. Além disso, a auto exploração profunda nos conduz à descoberta experiencial da reencarnação e da lei do carma. Isso nos traz a percepção da possibilidade de sérias repercussões experienciais do comportamento prejudicial, mesmo aqueles que escapam das reações da sociedade.


Platão estava claramente consciente das profundas implicações morais de nossas crenças no que se refere ao prosseguimento da vida após a morte biológica. Em seu livro Leis (Platão, 1961a) ele escreve que Sócrates dizia que a falta de conseqüências postmortem de nossos atos seria “uma dádiva aos perversos.” Nos estágios avançados de desenvolvimento espiritual, a combinação de decréscimo de agressividade, declínio de orientação egocêntrica, sentimento de ser um com os seres sencientes, e as consciências do carma torna-se um fator importante fator que governa nossa conduta no dia-a-dia.

Emergência Espiritual: Para Compreender a Crise de Evolução - Stanislav Grof

"O místico, dotado de talentos inatos..., e seguindo... a instrução de um mestre, entra na água e descobre que sabe nadar; o esquizofrênico, por sua vez, despreparado, sem orientação e sem dotes, caiu nela, ou mergulhou voluntariamente, e está se afogando."
Joseph Campbell, Myths to Live By

Sentimentos de unidade com todo o universo. Visões e imagens de épocas e locais distantes. Sensações de vibrantes correntes de energia percorrendo o corpo, acompanhadas de espasmos e de violentos tremores. Visões de divindades, semideuses e demônios. Vividos vislumbres de luzes brilhantes e das cores do arco-íris. Temores de insanidade, e até de morte, iminente.

Quem passar por esses fenômenos físicos e mentais extremos é rotulado imediatamente de psicótico pela maioria dos ocidentais de hoje. Contudo, um número crescente de pessoas parece estar tendo experiências incomuns semelhantes às descritas acima e, em vez de se perderem sem esperança na insanidade, esses indivíduos costumam sair desses estados mentais extraordinários com um sentido cada vez maior de bem-estar e com um nível superior de funcionamento na vida diária. Em muitos casos, problemas emocionais, mentais e físicos de longa data são curados nesse processo.

Encontramos muitos paralelos desses incidentes nas histórias de vidas de santos, de iogues, místicos e xamãs. Com efeito, a literatura e as tradições religiosas de todo o mundo validam o poder de cura e de transformação desses estados incomuns para as pessoas que passam por eles. Por que, então, as pessoas que têm essas experiências no mundo de hoje são consideradas, quase todas, mentalmente doentes?

Pesquisa da Consciência e Filosofia Eterna - Stanislav Grof

Através dos séculos, essas experiências (transpessoais) e os novos mundos que elas descortinam têm sido objeto de descrições no contexto das filosofias espirituais e tradições místicas, tais como o Vedanta, Hinayãna e Mahayãna Budistas, Taoismo, Sufismo, Gnoticismo, misticismo cristão, Cabala, e muitos outros sistemas espirituais sofisticados. As descobertas de minhas pesquisas e as pesquisas gerais relativas à consciência confirmam, em sua essência, como também amparam a posição de tais ensinamento antigos. Eles estão em completo conflito com os fundamentos mais fundamentais da ciência materialista no que concerne à consciência, natureza humana e a natureza da realidade. Eles claramente indicam que a consciência não é o produto do cérebro, e sim um princípio primário da existência, desempenhando um papel fundamental na criação do mundo fenomenal.

Aquelas pesquisas mudaram radicalmente nossa concepção da psique humana. Elas mostram que, em última análise, a psique de cada um de nós é, guardadas as devidas proporções, essencialmente o reflexo da existência como um todo e, no final das contas, é dotada do mesmo princípio criativo do próprio universo. Tal conclusão, embora seriamente desafiadora da cosmovisão das modernas sociedades tecnológicas, está amplamente de acordo com a imagem da realidade encontrada nas grandes tradições espirituais e místicas do mundo, as quais foram chamadas pelo escritor e filósofo anglo-americano Aldous Huxley de “perennial-philosophy” – filosofia eterna (Huxley 1945).


A pesquisa moderna da consciência tem gerado importantes dados que amparam os princípios básicos da filosofia eterna. Ela tem revelado a existência de um projeto intencional amplo subjacente a toda a criação e tem mostrado que tudo na existência está permeado por uma inteligência superior. À luz dessas novas descobertas, a espiritualidade é definida como um esforço legítimo e importante da vida humana, já que ela reflete a dimensão crucial da psique humana e do esquema universal das coisas. As tradições místicas e as filosofias espirituais do passado têm sido freqüentemente descartadas e mesmo ridicularizadas como sendo “irracionais” e “não-científicas.” Esse é um julgamento desinformado ao mesmo tempo que injustificado e sem nenhuma garantia. Muitos dos grandes sistemas espirituais são produtos de séculos de investigação profunda da psique humana e da consciência que, sob vários aspectos, é semelhante à pesquisa científica.