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sábado, 5 de agosto de 2017

A mulher sagrada

Para se curar é preciso estar sem roupa. Foi somente quando você se despiu que ela, generosamente, viu em seus olhos o seu mais profundo segredo. Olhou no fundo do seu abismo e lá descobriu você despedaçado. Essa mulher sagrada viu essa dor que não é sua, mas que te acompanha há muito tempo e está sempre próxima a você. Ela te fez ver que você não é essa dor. Que você não precisa estar nela. Isso é uma escolha que você faz a cada instante e, que a cada novo instante pode escolher o contrário. Essa dor, que não é sua, se mistura em sua vida formando a sua própria dor. Por isso é uma dor que, ao mesmo tempo em que não é sua, é também sua mais íntima dor. É uma dor que está aí porque você precisa dela. Porque é ela que te faz ter consciência da profunda interdependência que existe entre você e o outro; graças ao qual você pode ser inteiro no outro. É preciso encontrar um caminho para que essa dor - que não é sua, ao mesmo tempo em que é - não te despedace; e essa mulher conhece esse caminho. O corpo dela é o rio que quer te levar pro mar; mas você deve se soltar para permitir que ela te leve. O que pra você é um grande mistério, para ela é a simplicidade clara de quem ela é. Essa mulher é a sabedoria que eternamente junta seus pedaços. A estrela que te guia através da escuridão no sentido da luz. É a mais sagrada das mulheres; que sabe de tudo o que você precisa; e como uma fonte, traz tudo isso até você. Te convida sempre e de novo a uma dança circular - um ciclo eterno de cura, em que a cada volta junta em você um novo pedaço seu que antes estava separado. Que vai te tornando cada vez mais íntegro, até o infinito. Você só é inteiro em união com ela - escutando com atenção e deixando ser levado por sua sabedoria eterna.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Quem conhece Deus pessoalmente - Luís Paulo B. Lopes

Texto de Luís Paulo B. Lopes

Abençoado é aquele que conhece Deus pessoalmente. Que persevera com paciência enquanto atravessa a mais escura das noites. Pode a força lhe faltar e cair de joelhos; pode a esperança lhe abandonar e pensar que não há qualquer luz que o guie na escuridão. Pode se ver completamente só, no desamparo absoluto; perdido para sempre num labirinto sem fim. Pode entrar em desespero e se agarrar, em vão, a ilusões caducas, para logo vê-las escorrer entre os dedos. Pode se debater na lama, mortificado; abandonado pela fé. Mas esse que conhece Deus pessoalmente consegue encontrar, apalpando no escuro, aquilo que transforma a dor e o desespero em gratidão e amor. Pois se aconchega dentro do Coração do Pai Eterno, onde encontra consolo para tudo. Essa Pedra rubra transforma toda culpa em contrição; ódio em perdão; desapontamento em compreensão; reprovação em compaixão; humilhação em solidez. Todo peso se dissipa e a liberdade aflora de mãos dadas com a alegria. Vontade incontrolável de cantar pra Deus! A dor e o sofrimento são transformados num amor puríssimo e cristalino, e o coração transborda em gratidão! Coisa mais linda não há! Esse que conhece Deus pessoalmente não precisa acreditar, pois vive Nele; nesse Ser que está além de qualquer crença. Quem conhece Ele não precisa ser religioso; mas pode pertencer a qualquer religião. É verdade que todos acabam se esquecendo Dele pra se enrolar novamente na ilusão. Por algum motivo não é possível viver Nele o tempo inteiro. Mas esse que O conhece pessoalmente sempre acaba voltando ao aconchego do Lar, pois sabe escutar Seu chamado e conhece o caminho até Ele, através do próprio coração. É um afortunado que terá sempre uma Estrela pra lhe guiar; basta lembrar-se de olhar pro céu! Ela estará sempre lá por ele, indicando o caminho. É essa a Estrela que transforma fé em confiança, e confiança em otimismo diante da vida e da morte. Não é preciso acreditar em nada disso, pois há uma porta em cada coração, que leva direto ao Coração do Pai Eterno; basta abri-la e estar Nele. Por acaso tem como não chorar de gratidão por uma maravilha dessas?

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

O Numinoso - Rudolf Otto


Texto retirado do livro "O Sagrado" de Rudolf Otto

Este será, então, nosso intento no tocante à peculiar categoria do sagrado. Detectar e reconhecer algo como sendo "sagrado" é, em primeiro lugar, uma avaliação peculiar que, nesta forma, ocorre somente no campo religioso. Embora também tanja outras áreas, por exemplo, a ética, não é daí que provém a categoria do sagrado. Ela apresenta um elemento ou "momento" bem específico, que foge ao acesso racional no sentido acima utilizado, sendo algo árreton ["impronunciável], um ineffabile ["indizível"] na medida em que foge totalmente à apreensão conceitual.

1. Essa afirmação seria liminarmente falsa se o sagrado tivesse o sentido utilizado em certo linguajar filosófico e geralmente também no teológico. Acontece que nos habituamos a usar "sagrado" num sentido totalmente derivado, que não é o original. Geralmente o entendemos como atributo absolutamente moral, como perfeitamente bom. Kant, por exemplo, chama de vontade santa a vontade impelida pelo dever e que, sem titubear, obedece à lei moral. Só que isso seria simplesmente a vontade moral perfeita. Nesse sentido também se fala de dever "sagrado" ou da "santa" lei, mesmo quando o que se quer dizer não é nada mais do que sua necessidade prática, seu caráter normativo geral. Só que esse uso do termo heilig [sagrado ou santo] não é rigoroso. Embora o termo abranja tudo isso, nossa sensação a seu respeito subentende claramente algo mais, que precisamos especificar agora. Na verdade, o termo heilig e seus equivalentes linguísticos semítico, latino, grego e em outras línguas antigas inicialmente designava apenas esse algo mais, não implicando de forma alguma o aspecto moral, pelo menos não num primeiro momento e nunca de modo exclusivo. Como para nós hoje santidade sempre tem também a conotação moral, será conveniente, ao tratarmos aquele componente especial e peculiar, inventar um termo específico para o mesmo, pelo menos para uso provisório em nossa investigação, termo esse que então designará o sagrado descontado do seu aspecto moral e - acrescentamos logo - descontado, sobretudo, do seu aspecto racional. 

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Dissolução do eu na totalidade - Luis Paulo Lopes


Dissolução do eu na totalidade.

Luis Paulo B. Lopes

Uma grande dificuldade de falar sobre experiências enteogências é a limitação da linguagem pra exprimi-las. Ao assumir o desafio de escrever sobre elas, devo estar consciente de que nem de longe conseguirei alcança-la com minhas palavras. Além disso, sei também de que a linguagem que utilizarei será melhor assimilada por aqueles que tem alguma experiência com os enteógenos, pois as palavras poderão remeter às lembranças de suas próprias experiências. Entretanto, meu objetivo é falar a todos os interessados pelo assunto, independentemente se já tiveram ou não experiências da natureza que tentarei descrever. Àqueles que nunca exploraram as profundezas de seu Ser pelo viés da experiência enteogênica, fica aqui uma tentativa de demonstrar o indemonstrável. O que escrevo nas linhas que seguem não é, de maneira nenhuma, uma tentativa de oferecer um panorama definitivo sobre a experiência de morte do eu, é antes de tudo, uma forma particular de descrever algo que vivi. Portanto não tenho a pretensão de definir uma verdade, se é que isso é possível, mas apenas de falar livremente. 

A morte simbólica do eu, onde transcende-se os limites da personalidade, é uma experiência de grande intensidade, onde somente a entrega pode garantir uma morte tranquila. Quando o eu, na eminência de morte, tenta se agarrar em sua identidade, a experiencia pode assumir um aspecto terrificante, onde é comum a vivência da loucura ou de medo extremo por exemplo. Essa experiência de luta contra a morte poderia sem classificada como uma espécie de inferno consciencial. Mas se ao invés da luta, o navegante se entrega à morte com confiança, a passagem é feita de maneira tranquila e vive-se uma experiencia paradoxal onde o eu identifica-se com a totalidade. A parte vê a si mesma como sendo o todo sem deixar de saber que é parte. Os limites de identidade do eu se dissolvem e o individuo se transforma na totalidade. Nesse momento não existe mais um individuo vivendo uma experiência, ao invés disso, o indivíduo torna-se a própria experiência. A natureza paradoxal desse tipo de experiência faz com que seja ainda mais difícil falar sobre ela, a linguagem pode se ver presa em aparentes contradições que apenas se resolveriam com a vivência da experiência como suporte de compreensão.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Êxtase de Ramakrishna


...O sofrimento me dilacerava. Ao pensar que não teria na vida a graça desta visão divina, fui tomado de uma ansiedade terrível. Pensei: se isto deve ser assim, estou farto desta vida!... A grande espada estava pendurada no santuário de Kali. Meu olhar caiu sobre ela e um clarão atravessou-me a mente. - Ela!... Ela me ajudará a pôr fim... Precipitei-me em direção à espada. Segurei-a como um louco... E eis que a sala, com todas as suas portas e janelas, o templo, tudo desapareceu da minha vista. Parecia-me que nada mais existia. Em lugar disto, enxerguei um oceano do espírito, sem limites, resplandecente. Para qualquer ponto que voltasse os olhos, por mais longe que fosse, avistava as vagas enormes deste oceano brilhante. As ondas precipitavam-se furiosamente sobre mim, com um ruído medonho, como se fossem me engolir. Num instante estavam em cima de mim, arrebentaram, engoliram-me. Enrolado por elas, perdi a respiração. Perdi a consciência e caí no chão... Não sei como passei aquele dia e o seguinte. Dentro de mim rolava um oceano de alegria inefável. E até o fundo tinha consciência da presença da Mãe Divina...

(Edições de Planeta - Ramakrishna, o louco de Deus. São Paulo: Três, 1973. p.16).

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

A loucura divina - Stanislav Grof

Durante uma emergência espiritual, a mente lógica é, muitas vezes, desviada e os ricos mundos pitorescos da intuição, da inspiração e da imaginação assumem seu lugar. A razão se torna restrita e a verdadeira revelação fica acima do intelecto. Para algumas pessoas, essa incursão nas áreas visionárias pode ser excitante, espontânea e criativa. Mas várias vezes, como isso não envolve os estados da mente considerados normais, muitas pessoas pensam que estão ficando loucas.
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Quando acontece a dissolução da racionalidade como parte do desenvolvimento espiritual, ocorre o desaparecimento de antigas restrições mentais ou mesquinharias, que são às vezes obrigatórias, antes que uma consciência abrangente e uma inspiração intensificada possam tomar seu lugar. O que, na verdade, está desaparecendo não é a capacidade de raciocinar, embora possa parecer que isso aconteça durante um certo tempo, mas as limitações cognitivas que mantêm a pessoa pressionada e imutável.

Enquanto isso estiver ocorrendo, o pensamento linear será às vezes impossível, e a pessoa sentir-se-á mentalmente agitada quando a consciência for bombardeada com o material liberado pelo inconsciente. Emoções estranhas e perturbadoras tornar-se-ão subitamente acessíveis e a racionalidade outrora familiar será inútil para explicar essas ocorrências. Isso poderá ser um momento crítico muito assustador no desenvolvimento espiritual. Porém, se uma pessoa estiver verdadeiramente comprometida com o processo de emersão, isso será passageiro e poderá ser uma fase de transformação muito importante.

Em The Chasm of Fire, Irina Tweedy conta suas sensações de loucura:

Experiências próximas à morte - Stanislav Grof

"Então vi toda a minha vida passada aparecendo em muitas imagens, como num palco a uma certa distância de mim. Vi a mim mesmo como a personagem principal da apresentação. Tudo estava transfigurado como que por uma luz divina e tudo era belo, sem desgraça, sem ansiedade e sem dor. A lembrança de experiências muito trágicas que tive foram claras, mas não me entristeceram. Não senti nenhum conflito; o conflito tinha sido transformado em amor. Pensamentos sublimes e harmoniosos dominavam e uniam as imagens individuais, e como uma música magnífica uma calma divina arrebatou minha alma. Fiquei cada vez mais envolvido por um esplêndido céu azul com delicadas nuvenzinhas rosadas e violetas, precipitei-me para dentro disso tudo sem dor e suavemente e vi então que estava caindo livremente e abaixo de mim havia um campo de neve me esperando... Então, ouvi um baque surdo e minha queda chegara ao fim."

Albert Heim descrevendo sua queda quase fatal nos Alpes suíços

A morte é uma das poucas experiências universais da existência humana. É o acontecimento mais previsível em nossa vida e ainda o mais misterioso. Desde tempos imemoráveis, o fato de nossa mortalidade tem sido uma inesgotável fonte de inspiração para artistas e místicos. A idéia da sobrevivência da consciência após a morte e das jornadas póstumas da alma aparecem no folclore, na mitologia e na literatura espiritual de todos os tempos e culturas. Escrituras sagradas especiais têm sido dedicadas à descrição e discussão das experiências associadas com a morte e com o "morrer".

No passado, os cientistas ocidentais ignoraram o que eles chamavam de "mitologia funerária", considerando isso como um produto da fantasia e da imaginação de pessoas primitivas, incapazes de enfrentar e aceitar o fato da própria mortalidade. Essa situação começou a mudar dramaticamente depois que Elisabeth Kübler-Ross atraiu a atenção dos círculos profissionais para a área da morte e do "morrer" e Raymond Moody publicou Life after Life, seu livro mais vendido. O trabalho de Moody foi baseado nos casos de 150 pessoas que tiveram experiências próximas à morte; isso tornou válidas, em especial, as descrições da morte encontradas nos livros tibetanos e egípcios, no Ars Moriendi europeu e em outros guias semelhantes, de outros tempos e culturas, sobre a morte. Torna-se claro que o processo de "morrer" pode ser associado a uma jornada interior extraordinária, nas áreas transpessoais da psique.