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domingo, 2 de fevereiro de 2014

Quando o transpessoal é despertado - Piero Ferrucci

Texto retirado do livro "O que podemos vir a ser" de Piero Ferrucci. Introdução ao capítulo intitulado "A patologia do sublime - Riscos e distorções na exploração do supraconsciente". 

Por estranho que possa parecer, quando a inspiração transpessoal começa a se fazer sentir, a personalidade às vezes encontra maneiras de neutralizá-la. O reino da personalidade tem suas própria leis, metas e modos de funcionamento. Em muitos casos, o irromper da energia transpessoal causa uma expansão e uma transformação que são sentidas como benéficas e prazerosas. Em outros, porém, o impacto revolucionário do influxo de novas energias no quadro preexistente pode ser sentido como uma ameaça desconfortável.

Mesmo carregadas de um forte sentido de correção, as inspirações transpessoais têm a necessidade de que a personalidade como um todo se rearranje para ajustar-se aos objetivos e leis do Self. Neste caso, os velhos hábitos devem ser abandonados, os bloqueios psicológicos corajosamente encarados; novas e maiores responsabilidades devem ser assumidas e um ritmo não familiar deve ser adotado - em outras palavras, uma série de grandes mudanças põe-se a caminho.

As mudanças provocadas pela inspiração supraconsciente constituem, é claro, a consequência natural do desenvolvimento geral de uma pessoa. Mais cedo ou mais tarde, a crisálida torna-se borboleta; mas a crisálida pode de alguma forma lutar contra o processo de mudança. Crescer é compreender aquilo que não fomos capazes de conceber, sentir o que nunca sentimos, fazer o que nunca fizemos antes. É ousar o que nunca ousamos. Pode não ser, portanto, necessariamente prazeroso. Obriga-nos a abandonar nossa zona de conforto, a progredir em direção ao desconhecido, a encarar a formidável presença do Self. 

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

A música como agente de cura na psicossíntese - Roberto Assagioli

Texto de Roberto Assagioli retirado do livro "Psicossíntese - Manual de princípios e técnicas".

As propriedades curativas da música eram bem conhecidas dos povos do passado, que fizeram considerável uso dela. Entre os povos primitivos, canções e instrumentos musicais, como o tambor e a matraca, eram usados não só com o objetivo de reforçar o efeito de ervas ou drogas mas também como um meio independente de cura. [...]

No século XIX, em virtude da corrente materialista dominante, esse método de psicoterapia foi comparativamente negligenciado. [...] 

No século atual e, em particular, nestas últimas décadas, verificou-se um renovado interesse pela terapia musical que se manifesta principalmente em três campos: como um meio de suavizar a dor; através de aplicação coletiva em hospitais, sobretudo em clínicas psiquiátricas, com a finalidade de produzir efeitos tônicos ou calmantes nos pacientes; e como um meio de terapia ocupacional. 

Uma terapia musical verdadeiramente científica e, em especial, suas aplicações individuais - notadamente aquelas que visam a cura de problemas específicos em casos particulares - devem basear-se num conhecimento preciso dos vários elementos de que a música se compõe e do efeito que cada um desses elementos produzi sobre as funções fisiológicas e as condições psicológicas. [...]


terça-feira, 21 de janeiro de 2014

A cartografia da psique na psicossíntese - Roberto Assagioli

Texto retirado do livro "Psicossíntese - Manual de princípios e técnicas" de Roberto Assagioli.

[...] Se reunirmos os fatos comprovados, as contribuições positivas e bem autenticadas e as interpretações bem fundamentadas, ignorando os exageros e as superestruturas teóricas das várias escolas, chegamos em uma concepção pluridimensional da personalidade humana que, embora longe de perfeita ou final, é, pensamos nós, mais abrangente e está mais próxima da realidade do que as formulações anteriores. 

Para ilustrar tal concepção da constituição do ser humano em sua realidade viva e concreta, o seguinte diagrama pode ser útil. Trata-se, é claro, de uma representação grosseira e elementar que só pode oferecer um quadro estrutural, estático, quase "anatômico", de nossa constituição interna, ao mesmo tempo que deixa de fora o seu aspecto dinâmico, que é o mais importante e essencial. Mas, neste caso, como em toda a ciência, passos graduais devem ser dados e aproximações progressivas deve ser feitas. Quando se lida com uma realidade tão plástica e tão esquiva quanto a nossa vida psicológica é importante não perder de vista as linhas principais e as diferenças fundamentais; caso contrário, a multiplicidade de detalhes é suscetível de obscurecer o quadro, como um todo, e de impedir que nos apercebamos do significado, propósito e valor de cada uma de suas partes componentes. 

Com estas reservas e restrições, o mapa é o seguinte:

sábado, 18 de janeiro de 2014

Uma profusão de vidas: a clínica das subpersonalidades - Piero Ferrucci

Texto de Pierro Ferrucci (psicossíntese) retirado do livro "O que podemos vir a ser".

Uma das mais danosas ilusões que podem nos enredar é provavelmente a crença de que somos seres indivisíveis, imutáveis, totalmente consistentes. Mas, descobrir que o contrário é verdade está entre as primeiras tarefas - e possivelmente surpresas - que nos confrontam na aventura de nossa psicossíntese.

Podemos facilmente reconhecer nossa real multiplicidade através da constatação de quão frequentemente mudamos nossa perspectiva geral, mudando nosso modelo de universo com a mesma facilidade com que mudamos de roupa. Assim sendo, a vida pode nos parecer, em algum momento, como uma rotina, uma dança, uma corrida, uma aventura, um pesadelo, um enigma, um carrocel etc. 

Nossos vários modelos de universo colorem nossa percepção e influenciam nosso jeito de ser. E, para cada um deles, desenvolvemos uma auto-imagem e um conjunto de posturas corporais, gestos, sentimentos, comportamentos, palavras, hábitos e crenças. Essa constelação de elementos constitui, em si mesma, um tipo de personalidade miniatura, ou como passaremos a chamá-la, uma subpersonalidade.

As subpersonalidades são satélites psicológicos, coexistindo como uma profusão de vidas dentro da média global de nossa personalidade. Cada subpersonalidade tem um estilo e uma motivação próprios, frequentemente não similares aos das outras. Diz o poeta português Fernando Pessoa, "Em cada esquina de minh´alma, há um altar para um deus diferente".


Em cada um de nós há uma multidão. Pode haver o rebelde e o intelectual, a sedutora e a dona de casa, o sabotador e o esteta, o organizador e o bon vivant - cada qual com sua própria mitologia e, todos mais ou menos confortavelmente agrupados numa só pessoa. Com frequência, estão longe de estar em paz uns com os outros. Como escreveu Assagioli, "Nós não somos unificados; frequentemente sentimos que somos, porque não temos diversos corpos e diversos membros, porque usualmente uma mão não bate na outra. Mas metaforicamente, isto é exatamente o que de fato acontece dentro de nós. Muitas subpersonalidades estão continuamente envolvidas numa rixa tumultuada: impulsos, desejos, princípios, aspirações estão engajados numa luta incessante". [...]

domingo, 3 de agosto de 2008

Auto-Realização e Distúrbios Psicológicos - Roberto Assagioli

O desenvolvimento espiritual é uma longa e árdua jornada, uma aventura por estranhas terras plenas de surpresas, de alegrias e de beleza, de dificuldades e até de perigos. Envolve o despertar de potencialidades até então adormecidas, a elevação da consciência a novos domínios, uma drástica transmutação dos elementos "normais" da personalidade e um funcionamento no âmbito de uma nova dimensão interior. Uso o termo "espiritual" em sua conotação mais ampla e sempre com referência à experiência humana empiricamente observável. Nesse sentido, "espiritual" remete não somente a experiências tradicionalmente consideradas religiosas, como também a todos os estados de consciência e a todas as funções e atividades humanas que têm como denominador comum a posse de valores superiores aos comuns-valores éticos, estéticos, heróicos, humanitários e altruístas. Na psicossíntese, entendemos essas experiências de valores superiores como produtos dos níveis supraconscientes do ser humano. Pode-se conceber o supraconsciente como a contraparte superior do inconsciente inferior tão bem mapeado por Freud e por seus sucessores. Agindo como o centro unificador do supraconsciente e da vida do indivíduo como um todo, temos o Eu Transpessoal ou Superior. Logo, as experiências espirituais podem limitar-se aos domínios supraconscientes ou incluir a percepção consciente do Eu. Essa percepção torna-se aos poucos Auto-Realização - a identificação do "eu" com o Eu Transpessoal. Na discussão seguinte, farei considerações acerca dos vários estágios do desenvolvimento espiritual, incluindo o atingimento da realização do Eu. Não deveríamos nos surpreender ao sabermos que uma transformação tão fundamental é marcada por vários estágios críticos que podem ser acompanhados por inúmeros distúrbios mentais, emocionais e até físicos. À observação objetiva e clínica do terapeuta, esses elementos podem parecer os mesmos decorrentes de causas mais comuns. Na realidade, contudo, eles têm um significado e uma função bem distintos, precisando ser tratados de maneira bem diferente. A incidência de distúrbios de origem espiritual cresce rapidamente hoje acompanhando de perto o número crescente de pessoas que, consciente ou inconscientemente, abrem o seu próprio caminho para uma vida mais plena. Além disso, o maior desenvolvimento e complexidade da personalidade do homem de nossos dias e a sua mente cada vez mais crítica tornaram o desenvolvimento espiritual um processo mais rico e compensador, mas, ao mesmo tempo, mais difícil e complicado. No passado, uma conversão moral, uma simples devoção sincera a um mestre ou salvador, uma amorosa entrega a Deus costumavam ser suficientes para abrir as portas para um nível superior de consciência e para um sentido de união e de realização interiores. Agora, entretanto, os aspectos mais variados e complexos da personalidade do homem moderno estão envolvidos no processo e requerem uma transmutação e uma harmonização entre si: seus impulsos fundamentais, suas emoções e sentimentos, sua imaginação criadora, sua mente inquisitiva, sua vontade afirmativa, bem como suas relações sociais e interpessoais. Por essas razões, é útil fazer uma descrição geral dos distúrbios passíveis de surgir nos vários estágios do desenvolvimento espiritual, assim como dar algumas indicações sobre como tratar melhor deles. Podemos reconhecer nesse processo quatro estágios, ou fases, críticos: Crises que precedem o despertar espiritual, Crises causadas pelo despertar espiritual, Reações que seguem o despertar espiritual, e Fases do processo de transmutação. Usei o termo simbólico “despertar” porque ele sugere com clareza a tomada de consciência de uma nova área da experiência, a abertura dos olhos até então fechados para uma realidade interior antes desconhecida.