É como se você descobrisse, depois de uma longa noite de peregrinação, que em algum lugar de você há uma outra forma de viver. Uma outra forma de ver e sentir o mundo; com outras imagens e outros afetos. Nasce uma nova forma de ser, que vinha sendo gestada no escuro desde sempre. Um novo ser que já nasce pronto. Quando finalmente nasce, parece que nos tornamos quem realmente somos. Como se sempre tivéssemos sido este ser que nos tornamos. Este mesmo ser que sempre estivemos destinados a ser. O ser que é nossa origem e sempre será nosso destino
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domingo, 24 de setembro de 2017
A pedra que os construtores rejeitaram
"A pedra que os construtores rejeitaram, tornou-se pedra angular".
Essa pedra rejeitada é aquele brilho que a criança perdeu quando precisou virar adulto. Essa pedra angular é aquela que faz o adulto voltar a ser como criança quando a firma como fundamento de sua própria edificação. Há uma força de vida que traz novo brilho ao mundo naquilo que é considerado inadequado. Essa semente da nova vida é o próprio segredo guardado pela vergonha. A porta de entrada para a vida se chama morte.
"Pois, que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?"
O maior dos prestígios não pesa uma única grama da verdade! É preciso abandoar aquilo que a moralidade fez de nós pra que nos encontremos com quem realmente somos. Essa visão de mundo, que nos abraça como se fosse nossa, faz com que rejeitemos essa pedra! Nos faz acreditar se tratar de algo que deva ser eliminado; e, assim, nos aliena da nossa mais sublime força de vida. Mas é preciso se perder para poder se encontrar. Devemos ser gratos à ilusão que precisamos abandonar! Ela é a condição da verdadeira liberdade.
Somente com rebeldia podemos ser no mundo. Quem realmente somos é uma força revolucionária que anseia por transformar a realidade; solve et coagula sempre ao infinito, ao centro eternamente perto e distante! Maravilhosa é essa pedra rejeitada! A mais valiosa de todas as pedras; alegria da criança em viver livre na verdade. Escondida dos sábios e prudentes, mas revelada aos simples e pequenos!
Viver é como...
Viver é como estar em um corredor com infinitas portas, onde precisamos encontrar a árvore da verdade. Atrás de cada porta tem uma paisagem perfeita, uma visão de mundo pronta e acabada. Em qualquer uma delas há uma pequena semente da mesma árvore que procuramos. Conforme andamos por este corredor, uma dessas portas nos intriga. Deve estar ali a verdade que tanto procuramos! A ânsia é tanta que quando nos damos conta, já estamos do outro lado, satisfeitos em procurar aquela sementinha. Sem demora a encontramos, e quando finalmente a possuímos, dormimos uma eternidade. Só se acorda quando se sonha com a árvore da verdade; quando ela pede novamente que seja encontrada. Mas é sempre um despertar penoso. O sono nos puxa de volta em seus braços. Quando finalmente conseguimos acordar, nos vemos no vazio do corredor. - Onde está a verdade? Novamente nos perguntamos. E seguimos andando através desse vazio. Até outra porta aparecer reluzente e sermos sugestionados, quase hipnotizados, a possuir aquela pequena semente que, certamente, estará do outro lado. Mas novamente quando a possuímos, caímos no sono. E isso se repete... Ser livre é andar no vazio desse mesmo corredor em que sempre estivemos; abrindo todas as portas, contemplando todas as paisagens, mas sem entrar em nenhuma em particular. Talvez, quando finalmente vivermos isso em cada parte de nossos corpos, despertaremos desse sonho, sob uma árvore chamada verdade.
sexta-feira, 11 de agosto de 2017
A escuta e o autoconhecimento

Saber escutar é sempre um exercício de humildade. Só é possível encher um recipiente que esteja vazio. É esvaziar-se de nossos pressupostos para que a verdade do outro possa nos revelar, ao mesmo tempo, quem ele é e quem nós somos. Como se precisássemos tirar a roupa para sentir o toque e percebermos, não somente a pele do outro, mas nossa própria pele. Não existe autoconhecimento sem o outro. Sem ele, só há uma visão fechada em si mesma; que se pretende reveladora, enquanto nos oculta de nós mesmos.
quinta-feira, 22 de junho de 2017
Quem conhece Deus pessoalmente - Luís Paulo B. Lopes
Texto de Luís Paulo B. Lopes
Abençoado é aquele que conhece Deus pessoalmente. Que persevera com paciência enquanto atravessa a mais escura das noites. Pode a força lhe faltar e cair de joelhos; pode a esperança lhe abandonar e pensar que não há qualquer luz que o guie na escuridão. Pode se ver completamente só, no desamparo absoluto; perdido para sempre num labirinto sem fim. Pode entrar em desespero e se agarrar, em vão, a ilusões caducas, para logo vê-las escorrer entre os dedos. Pode se debater na lama, mortificado; abandonado pela fé. Mas esse que conhece Deus pessoalmente consegue encontrar, apalpando no escuro, aquilo que transforma a dor e o desespero em gratidão e amor. Pois se aconchega dentro do Coração do Pai Eterno, onde encontra consolo para tudo. Essa Pedra rubra transforma toda culpa em contrição; ódio em perdão; desapontamento em compreensão; reprovação em compaixão; humilhação em solidez. Todo peso se dissipa e a liberdade aflora de mãos dadas com a alegria. Vontade incontrolável de cantar pra Deus! A dor e o sofrimento são transformados num amor puríssimo e cristalino, e o coração transborda em gratidão! Coisa mais linda não há! Esse que conhece Deus pessoalmente não precisa acreditar, pois vive Nele; nesse Ser que está além de qualquer crença. Quem conhece Ele não precisa ser religioso; mas pode pertencer a qualquer religião. É verdade que todos acabam se esquecendo Dele pra se enrolar novamente na ilusão. Por algum motivo não é possível viver Nele o tempo inteiro. Mas esse que O conhece pessoalmente sempre acaba voltando ao aconchego do Lar, pois sabe escutar Seu chamado e conhece o caminho até Ele, através do próprio coração. É um afortunado que terá sempre uma Estrela pra lhe guiar; basta lembrar-se de olhar pro céu! Ela estará sempre lá por ele, indicando o caminho. É essa a Estrela que transforma fé em confiança, e confiança em otimismo diante da vida e da morte. Não é preciso acreditar em nada disso, pois há uma porta em cada coração, que leva direto ao Coração do Pai Eterno; basta abri-la e estar Nele. Por acaso tem como não chorar de gratidão por uma maravilha dessas?
Sobre o sacrifício: persona, sombra e Self - Luís Paulo B. Lopes
Texto de Luís Paulo B. Lopes
É como se tivéssemos que sacrificar os ideais mais elevados do homem civilizado, aos quais julgamo-nos eméritos representantes; aquelas virtudes coletivas que pensamos não somente possuir, mas que chegamos a confundir-nos com elas. Concordo com Jung quando afirma que a identificação com a persona é sempre um ato egoísta que tenta tirar alguma vantagem; já que através dela recebemos admiração, segurança, um lugar de valor no mundo. Com isso, ingressamos no paraíso da inconsciência; no alto de um platô sobre nuvens, onde não é possível ver o que há mais abaixo. Tentamos espremer o mundo para que caiba dentro de nossa própria cosmovisão e, assim, projetamos uma imagem do mundo como se este fosse imutável e previsível; ao mesmo tempo, supomos haver descoberto e encarnado o significado último de ser um homem civilizado. Protegidos da insegurança que anda de mãos dadas à eterna impermanência do fluir da vida através do tempo, evitamos cautelosamente a amarga consciência de estarmos perdidos em território misterioso e inexplorado. Livres dos conflitos morais que emergiriam implacáveis caso tivéssemos consciência de que o mal que combatemos no outro é o mal de nosso tempo, do qual estamos imersos até o pescoço. Acreditando cegamente que somos aceitos por inteiro, mesmo quando oferecemos ao mundo nossa face bela e ocultamos a terrível, e assim alienamo-nos da inexorável solidão inerente à condição humana e do abandono irrevogável que nos marca a todos no instante em que nascemos. Em suma, nos protegemos de quem realmente somos ao confundirmo-nos com o tributo que devemos pagar ao coletivo; perdemo-nos de nós mesmos num regozijo paradisíaco ao acreditarmos ser unicamente aquilo que o mundo espera que sejamos. Pois é este paraíso que devemos sacrificar a fim de nos encontrarmos com nós mesmos em nossa dolorosa ambiguidade; é como abrir os braços à dor que nos sustenta, mas da qual fugimos assustados sempre que espreita - a dor de ser. Embora experimentemos este sacrifício como autoimolação, fundamentalmente não se trata de negar a si próprio, mas de negar a sedução paradisíaca de ser inteiramente definido pelo mundo. Eis o paradoxo: ao oferecermo-nos em sacrifício, damos vida a quem somos.
É como se tivéssemos que sacrificar os ideais mais elevados do homem civilizado, aos quais julgamo-nos eméritos representantes; aquelas virtudes coletivas que pensamos não somente possuir, mas que chegamos a confundir-nos com elas. Concordo com Jung quando afirma que a identificação com a persona é sempre um ato egoísta que tenta tirar alguma vantagem; já que através dela recebemos admiração, segurança, um lugar de valor no mundo. Com isso, ingressamos no paraíso da inconsciência; no alto de um platô sobre nuvens, onde não é possível ver o que há mais abaixo. Tentamos espremer o mundo para que caiba dentro de nossa própria cosmovisão e, assim, projetamos uma imagem do mundo como se este fosse imutável e previsível; ao mesmo tempo, supomos haver descoberto e encarnado o significado último de ser um homem civilizado. Protegidos da insegurança que anda de mãos dadas à eterna impermanência do fluir da vida através do tempo, evitamos cautelosamente a amarga consciência de estarmos perdidos em território misterioso e inexplorado. Livres dos conflitos morais que emergiriam implacáveis caso tivéssemos consciência de que o mal que combatemos no outro é o mal de nosso tempo, do qual estamos imersos até o pescoço. Acreditando cegamente que somos aceitos por inteiro, mesmo quando oferecemos ao mundo nossa face bela e ocultamos a terrível, e assim alienamo-nos da inexorável solidão inerente à condição humana e do abandono irrevogável que nos marca a todos no instante em que nascemos. Em suma, nos protegemos de quem realmente somos ao confundirmo-nos com o tributo que devemos pagar ao coletivo; perdemo-nos de nós mesmos num regozijo paradisíaco ao acreditarmos ser unicamente aquilo que o mundo espera que sejamos. Pois é este paraíso que devemos sacrificar a fim de nos encontrarmos com nós mesmos em nossa dolorosa ambiguidade; é como abrir os braços à dor que nos sustenta, mas da qual fugimos assustados sempre que espreita - a dor de ser. Embora experimentemos este sacrifício como autoimolação, fundamentalmente não se trata de negar a si próprio, mas de negar a sedução paradisíaca de ser inteiramente definido pelo mundo. Eis o paradoxo: ao oferecermo-nos em sacrifício, damos vida a quem somos.
Sobre a angústia: alteridade e o nascer da imagem - Luís Paulo B. Lopes
Texto de Luís Paulo B. Lopes
A angústia é algo que impede o nascimento de uma imagem que tenta vir à luz. Como se a imagem ficasse turva e imperceptível por uma mancha; que cresce na medida em que a imagem se aproxima. Surge quando uma imagem quer se formar mas não consegue; e quando ela finalmente se forma, a angústia desaparece. Tomar consciência da imagem oculta sob a angústia, portanto, envolve permitir seu nascimento, sentir o afeto que carrega, estar com ela e lidar com a responsabilidade ética que ela traz consigo. Permitir o nascimento da imagem depende da aceitação da angústia; de abrir mão da vontade de afastar o mal-estar, assumindo uma postura passiva e receptiva. É preciso abandonar as armas. O eu que aceita torna-se então a terra fértil que pode receber a semente imagética e, o estar com ela é o mesmo que permitir que cresça até se transformar em uma nova atitude que leve em conta o outro rejeitado. Partindo da rejeição, passa pelo suportar, pelo tolerar, até que finalmente nasça uma atitude fraterna. Da ética da exclusão para uma ética da fraternidade imagética. Nesse caminho, transforma-se não somente a imagem e seu afeto, mas também o eu se fortalece através do ganho de flexibilidade. Ampliar a consciência não se refere somente a jogar luz na escuridão, isto é somente uma consequência; o fundamental é uma mudança de atitude diante da imagem, em que sejamos mais capazes de estar abertos ao outro. É isso o que a angústia tenta operar, uma abertura do eu em relação ao inconsciente e à vida. Não se trata de ser capaz de aceitar tudo, muito menos de cumprir com a expectativa do outro, mas é como aceitar o próprio destino.
A angústia é algo que impede o nascimento de uma imagem que tenta vir à luz. Como se a imagem ficasse turva e imperceptível por uma mancha; que cresce na medida em que a imagem se aproxima. Surge quando uma imagem quer se formar mas não consegue; e quando ela finalmente se forma, a angústia desaparece. Tomar consciência da imagem oculta sob a angústia, portanto, envolve permitir seu nascimento, sentir o afeto que carrega, estar com ela e lidar com a responsabilidade ética que ela traz consigo. Permitir o nascimento da imagem depende da aceitação da angústia; de abrir mão da vontade de afastar o mal-estar, assumindo uma postura passiva e receptiva. É preciso abandonar as armas. O eu que aceita torna-se então a terra fértil que pode receber a semente imagética e, o estar com ela é o mesmo que permitir que cresça até se transformar em uma nova atitude que leve em conta o outro rejeitado. Partindo da rejeição, passa pelo suportar, pelo tolerar, até que finalmente nasça uma atitude fraterna. Da ética da exclusão para uma ética da fraternidade imagética. Nesse caminho, transforma-se não somente a imagem e seu afeto, mas também o eu se fortalece através do ganho de flexibilidade. Ampliar a consciência não se refere somente a jogar luz na escuridão, isto é somente uma consequência; o fundamental é uma mudança de atitude diante da imagem, em que sejamos mais capazes de estar abertos ao outro. É isso o que a angústia tenta operar, uma abertura do eu em relação ao inconsciente e à vida. Não se trata de ser capaz de aceitar tudo, muito menos de cumprir com a expectativa do outro, mas é como aceitar o próprio destino.
terça-feira, 27 de janeiro de 2015
A psicoterapia - Luís Paulo B. Lopes
O mergulho no inconsciente não depende de uma postura introspectiva voluntária, como se tivéssemos que nadar para o fundo do mar contra a força do ar em nossos pulmões que insiste em nos levar para a superfície. Ao contrário, o mergulho é mais como se houvesse uma grande pedra amarrada em nossos pés que nos puxa para o fundo apesar de nossos esforços para nos mantermos na superfície. É um processo involuntário que não pode ser interrompido, nem pela mais obstinada força de vontade. A força da pedra que nos puxa para o fundo é infinitamente maior do que a força dos braços do melhor dos nadadores. O inconsciente nos atrai com seu fascínio através das projeções. Faz com que nos movamos no mundo sem nos darmos conta da verdadeira finalidade de "nossas" escolhas. O fato é que muitas das escolhas que pensamos ser nossas, são na verdade de um sem número de outros eus que coabitam nossa totalidade. O eu entretanto tenta tomar posse de tudo que chega à superfície da consciência, e assim acredita que tal ideia é minha, tal escolha é minha, tão percepção é minha, tal forma de ver as coisas é minha, tal estado de espírito é meu, tal emoção é minha, tal desejo é meu, etc. quando muitas vezes são manifestações imediatas da autonomia do inconsciente, nos seduzindo para uma finalidade que nos transcende. Se não desenvolvermos uma atitude religiosa em relação a nosso próprio processo, somos vitimados por um destino coletivo e muitas vezes trágico. Jung define a atitude religiosa através de uma análise etimológica um pouco incomum do termo religio. Comumente considera-se religio como derivado de religare (religar) e entende-se que religião refere-se à religação do homem com Deus. Mas para Jung, religio é derivado de religere (examinar cuidadosamente, examinar de novo, refletir bem), portanto, quando fala em atitude religiosa está falando de uma postura atenta e cuidadosa frente ao próprio processo. A ideia de cultivar a alma, de James Hillman, é uma imagem mais poética que se refere exatamente à mesma coisa. A postura adequada frente ao processo deve ser cuidadosa, atenta e paciente como se estivéssemos cultivando um jardim. As flores nascem a seu próprio tempo e por elas mesmas se o cultivarmos adequadamente. É justamente a atitude religiosa, neste sentido, ou o cultivo da alma, que pode nos salvar do afogamento no fundo do mar durante o mergulho no inconsciente. Assim sendo, estar atento de forma cuidadosa ao processo significa conhecer as imagens da alma. Aqui sim a postura introspectiva voluntária se torna importante; não como forma de mergulhar no inconsciente já que neste caso somos simplesmente tragados, mas como forma de encontrarmos um modo de voltar à superfície através do que encontrarmos no fundo do mar.
domingo, 23 de novembro de 2014
Uma análise contemporânea do Herói na perspectiva junguiana - Luís Paulo B. Lopes
Texto de Luís Paulo B. Lopes
Há uma série de visões diferentes sobre a questão do herói em psicologia analítica. Jung considerava o herói como sendo uma imagem da energia psíquica em seu movimento de regressão e progressão. Na perspectiva de Jung, o mitologema do herói seria fundamental para a compreensão de todo e qualquer confronto entre o eu e o inconsciente, não sendo possível localizar de forma exclusiva a constelação deste arquétipo em um único período cronológico da vida de um indivíduo, já que estaria relacionado aos processos de ampliação de consciência que ocorrem ao longo de toda a vida. Já Neumann, relaciona o herói ao desenvolvimento do complexo do eu e ao desenvolvimento da consciência na humanidade, partindo da perspectiva de que a ontogênese repete a filogênese, isto é, de que o desenvolvimento arquetipicamente determinado do indivíduo segue as mesmas trilhas que o desenvolvimento da consciência se deu na humanidade de modo geral. Talvez deva ser creditada à Neumann, graças ao livro "A criança", a relação feita entre os mitos de heróis e a passagem da adolescência à idade adulta. Outros autores pós junguianos seguiram esta mesma linha de raciocínio ao associarem o herói com o masculino imaturo, como Robert Moore e David Gillette. Hillman, finalmente, problematizou a questão do herói, e através de sua análise, o destronou do status que goza na contemporaneidade. Em psicologia arquetípica, falar em heroico é quase o mesmo que dizer conquista à força. A abordagem de Hillman, que traz a bela imagem do cultivo da alma como se fosse um cuidado paciente de um jardim, passou a considerar o heroico quase como algo antinatural e prejudicial ao desenvolvimento saudável. Como se fosse um ímpeto colonizador que não estaria de acordo com a atitude paciente e delicada que temos que ter para o cultivo da alma. O herói em Hillman cai de sua posição semidivina para ser identificado com o ego usurpador da multiplicidade arquetípica da alma.
O herói contemporâneo, retratado de tantas formas no cinema e na literatura, parece de fato ser como o herói egóico de Hillman. Mas é importante notarmos que o mitologema do herói foi alterado de forma considerável em nosso imaginário contemporâneo, e o motivo para esta alteração é exatamente o ideal individualista, materialista e imperialista do século XXI, a hybris de nosso zeitgeist. O que então mudou nas estórias de heróis da atualidade? Pode parecer um pequeno detalhe, mas no fundo faz toda a diferença. A anomalia do herói contemporâneo é não necessitar de ajuda divina ou sobrenatural. Trata-se de alguém que abraça uma causa coletiva e resolve por conta própria, sem ajuda de ninguém, mas através de seus próprios méritos; assim como Édipo fez quando derrotou a Esfinge. Os heróis da atualidade são individualistas, aclamados pelo coletivo (celebridades), colonizadores que conquistam a “rosa da imortalidade” através da força bruta. Um retrato de uma cultura inflada em que o homem pretende usurpar o trono do deus que está morto, como Nietzsche anunciou. Este herói é um ideal coletivo do indivíduo perfeitamente realizado em nossa sociedade; ideal esse buscado pelas individualidades em uma corrida insana onde as pessoas se atropelam em um frenesi infantil, e que no fundo parecem ter como intento ser plenamente amadas e aceitas. E sem percebermos, somos impelidos a sermos aquilo que não somos. Tendo isso em vista, a única conclusão que posso chegar é que sem os aspetos transpessoais, sejam divindades ou animais falantes (psicopompos, guias da alma), o herói contemporâneo acabou se transformando em anti-herói; pois ao invés de ser conduzido a ser quem realmente é, acaba sendo conduzido a ser quem não é.
domingo, 16 de novembro de 2014
Psicose e psicologia analítica: de C. G. Jung à Nise da Silveira - Luís Paulo B. Lopes
Texto de Luís Paulo B. Lopes
A esquizofrenia, anteriormente denominada dementia praecox, teve importância fundamental para que Jung desenvolvesse a psicologia analítica. De acordo com Walter Boechat (2009), “toda teoria psicológica é formulada a partir de um alicerce psicopatológico” (p. 30) e “a esquizofrenia vem a ser a psicopatologia que proporciona o fundamento teórico para a psicologia analítica” (p.31). Os principais conceitos formulados por Jung foram desenvolvidos através de suas observações com pacientes esquizofrênicos. Neste artigo vamos abordar a importância da psicose para o desenvolvimento da psicologia analítica assim como o entendimento teórico que Jung formulou sobre a psicose até chegarmos nas intervenções terapêuticas pioneiras desenvolvidas pela Dra. Nise da Silveira.
No inicio de sua carreira como psiquiatra, Jung trabalhou no Hospital Burghölzli na Suíça, ao lado do renomado Eugen Bleuler. Foram as idéias desenvolvidas por Bleuler, nesta época, que possibilitaram a substituição do conceito de dementia praecox pelo conceito de esquizofrenia. Segundo Boechat (op. cit), o trabalho desenvolvido por Jung no Hospital Burghölzli foi fundamental para que chegasse à ideia da presença de mitologemas (núcleos temáticos universais), através da observação dos delírios e alucinações de seus pacientes. Esses mitologemas apontariam para uma provável origem comum para os, atualmente denominados, sintomas positivos da esquizofrenia. Isso possibilitou que Jung formulasse a hipótese do inconsciente coletivo. O próprio Jung (2007. OC 5) em um de seus livros de grande importância histórica, por ser considerado o marco de sua ruptura com Freud, intitulado atualmente como “Símbolos da transformação”, descreve a alucinação de um de seus pacientes: “O doente vê no sol um membro ereto. Quando balança a cabeça para um e outro lado, o pênis solar também oscila numa e noutra direção, e daí se origina o vento” (p. 89. §151). Tal descrição aparentou não possuir nenhum sentido mais profundo para o jovem psiquiatra naquele momento. Anos mais tarde, quando um texto referente às visões da liturgia de Mitra foi traduzido do grego, Jung observou que a alucinação desse paciente era extraordinariamente semelhante ao que estava descrito no antigo texto. Esse fato foi especialmente importante para que formulasse o conceito de arquétipos, definindo-os como uma “predisposição funcional para produzir idéias iguais ou semelhantes” (p. 91. §154). O paciente que relatou tal alucinação não conhecia o idioma grego e na ocasião em que a relatou, o texto ainda não havia sido traduzido. Esse fato excluía a possível hipótese de que o paciente tinha conhecimento prévio sobre o texto e, quando relatou sua alucinação estava apenas descrevendo algo que já conhecia ou que se trataria de um caso de criptomnésia. Embora esse caso tenha tido importância especial para Jung, foi somente após uma série de outras observações de ocorrências de mitologemas em mitos, contos de fada, sonhos, delírios e fantasias, que Jung chegou a formulação da teoria do inconsciente coletivo e dos arquétipos.
Boechat (op. cit) comenta que Jung, assim como Bleuler, não se contentava com o ponto de vista psiquiátrico, dominante em sua época, que lidava com os sintomas psicóticos apenas sob uma perspectiva descritiva e diagnóstica. Ao invés disso, procurava “sempre o conteúdo simbólico das esquizofrenias” (p. 31). Esse posicionamento possibilitou que Jung fosse além dos preceitos psiquiátricos de sua época (que permanecem atuais) e formulasse uma teoria que não concebia os delírios e alucinações como desprovidos de significação. Para Jung, os sintomas psicóticos manifestam-se de forma totalmente irracional, de impossível compreensão a não ser que se parta de um pressuposto simbólico. Isso significa que exprimem um sentido mais profundo, embora impossível de ser apreendido pela consciência de forma imediata, o que os tornam aparentemente sem sentido.
sábado, 15 de novembro de 2014
Mortos vivos: imaginação, sonho e psicologia junguiana - Luís Paulo B. Lopes
Texto de Luís Paulo B. Lopes
Os mortos vivos são habitantes do imaginário humano pelo menos desde a Mesopotâmia, a primeira civilização da humanidade. Tabuletas de argila encontradas entre o Tigre e o Eufrates (rios no território do atual Iraque) falavam de rituais para apaziguar as “almas” dos antepassados, que negligenciados após a morte (sem os ritos apropriados), seriam responsáveis por uma série de moléstias, incluindo aquelas que hoje consideramos psicológicas. Ao longo do tempo, outros ritos fúnebres foram criados levando em conta a possibilidade dos mortos retornarem à vida, como os sepultamentos em caixões de madeira lacrados, por exemplo. Mortos vivos habitaram também o imaginário da Europa medieval. Diversas foram as formas que assumiram, desde mortos que levantavam de seus túmulos até as Sucumbos, demônios femininos que seduziam as pessoas em seus sonhos para roubar-lhes energia vital. As Sucumbos talvez tenham sido o protótipo do vampiro contemporâneo, que ao invés de sêmen, sugam sangue como fonte de energia vital, mas que ainda são associados à sexualidade. O Drácula de Bram Stoker foi um clássico do fim do século XIX que alcançou em cheio a alma do mundo ocidental, tendo se tornado referência para os vampiros que seriam criados desde então, até os dias de hoje.
O fato é que os mortos vivos são personagens do imaginário humano pelo menos desde os primórdios da civilização. Independente da cultura, do tempo e da religião, havia o morto vivo habitante do mundo imaginal, em uma série de formas diferentes e muitas vezes relacionados a alguma forma de maldição familiar. No cenário contemporâneo, filmes, séries de televisão, animações e livros sobre zumbis e vampiros fazem muito sucesso, isto é, continuam nos fascinando. O Drácula ganhou inúmeras versões na literatura e no cinema. Os zumbis, criaturas que se levantam da morte com um apetite insaciável pela carne dos vivos, também capturaram o imaginário contemporâneo. Talvez o mais importante filme sobre essas criaturas tenha sido “A noite dos mortos vivos” (Night of the living dead) de 1968, e desde então o interesse sobre os mortos que se levantam do túmulo só parece aumentar. O sucesso da série de televisão “The walking dead” mostra que os mortos vivos continuam ocupando lugar de honra em nosso imaginário até os dias de hoje, pelo menos desde a origem da civilização e possivelmente bem antes disso.
Assim como ocorre com qualquer imagem arquetípica que “habita” o mundo imaginal, os mortos vivos são continuamente reatualizados através da imaginação criativa, das estórias de horror e de nossos sonhos. É inclusive bastante comum que o mitologema do morto que retorna à vida para sugar a energia vital ressurja nos sonhos contemporâneos, fato esse que reforça a tese de sua importância significativa para a alma. Há aparições oníricas que reúnem os elementos presentes na literatura e no cinema contemporâneos e outras formas menos reconhecíveis, mas sempre arrumam alguma forma imagética para afirmarem que existem de fato. Segue um sonho (publicado com autorização) de um jovem de vinte e cinco anos que ilustra uma aparição de mortos vivos:
sábado, 1 de novembro de 2014
A questão da interpretação das imagens na psicologia junguiana - Luís Paulo B. Lopes
Texto de Luís Paulo B. Lopes
As imagens têm importância central para a psicologia junguiana, seriam elas a linguagem que a alma se utiliza para falar de si própria. Jung dá grande importância aos mitos, contos de fada, sonhos e fantasias, por considerar que estas imagens trazem consigo elementos arquetípicos que constituem os fundamentos da alma. James Hillman também nos fala da importância da utilização de imagens metafóricas para pensarmos a alma, pois segundo afirma, os conceitos psicológicos tendem, devido à própria natureza unilateral da linguagem conceitual, a literalizar teorias e engessar nosso entendimento sobre nós mesmos. Jung sempre salientou este risco quando repetidas vezes alertou para a tendência a hipostasiarmos teorias, isto é, a confundirmos nossos conceitos sobre a alma com a alma em si mesma. Para Hillman, é a linguagem metafórica que nos previne de confundir o mapa com o território, pois a ambiguidade implícita da metáfora impede a unilateralidade conceitual e a consequente literalização.
Hillman considera a metáfora como a coniunctio falada, isto é, engloba os opostos em uma unidade paradoxal. Este pensamento está de acordo com o que pensava Jung quando afirmava que o símbolo é a união dos opostos, isto é, irremediavelmente ambíguo, e que a postura simbólica é o que permite a abertura do indivíduo ao mistério no trato com a imagem. Ao contrário da postura simbólica, a postura semiótica, segundo Jung seria responsável por definir correspondências estáticas entre imagens e significados definidos, algo extremamente semelhante ao problema da literalização proposto por Hillman. O cuidado em discernir postura simbólica de postura semiótica, por Jung, nos adverte de que mesmo quando utilizamos uma linguagem imagética, não estamos necessariamente trabalhando de maneira simbólica. E que nossa postura diante das imagens é de fundamental importância para que mantenhamos a ambiguidade do símbolo viva, e assim a possibilidade de abertura para o desconhecido.
terça-feira, 28 de outubro de 2014
A psicologia junguiana e o resgate da alma brasileira - Luís Paulo B. Lopes
Texto de Luís Paulo B. Lopes
A alma brasileira não pode ser adequadamente circunscrita de forma exclusiva pela mitologia grega e pelo mito judaico-cristão. Somos um povo miscigenado, com fortes influências da cultura africana e indígena. Nossa cultura foi formada, literalmente pelo choque entre essas culturas. Apesar de nossa riqueza étnica e cultural, a história de dominação da cultura europeia tendeu a excluir nossas influências africanas e indígenas do debate acadêmico. Historicamente, os mitos, ritos e costumes destas culturas foram estudados por nossos etnólogos e antropólogos como culturas exóticas, mas somente raramente como constituintes fundamentais de nossa cultura, sempre presentes no aqui e agora. A psicologia junguiana no nacional tendeu, ao longo dos poucos anos em que floresceu no Brasil, a reproduzir as mesmas temáticas abordadas pelo pensamento europeu. Do ponto de vista arquetípico, as produções acadêmicas nacionais tendem a utilizar majoritariamente a mitologia grega e o mito judaico-cristão em suas amplificações. Não quero dizer que estes mitos não exerçam grande importância em nossa constituição cultural e psíquica, mas por outro lado é importante assumir que abordar cultura tão rica e complexa como a brasileira a partir desta perspectiva unilateral significa ignorar ampla parcela de nossa cultura; é ignorar ampla parcela de nossa alma.
Somente recentemente a psicologia junguiana brasileira parece ter se ocupado de forma séria com a constituição complexa de nossa cultura, levando em conta as diversas influências étnicas e culturais que nos constituem enquanto brasileiros. Um exemplo do esforço nacional pelo resgate da alma brasileira foi materializado no primeiro volume da coleção “alma brasileira” publicado em 2014 pelas editoras Mauad X e Bapera. Esta coleção foi idealizada e planejada, segundo Oliveira (2014), a partir do “Colóquio: Psicomitologia Junguiana e Mitos Brasileiros” em novembro de 2011. O objetivo da coleção é introduzir de forma definitiva os mitos constituintes de nossa cultura, ainda vivos no imaginário brasileiro, no estudo de nossa alma sob a perspectiva da psicologia junguiana. Leonardo Boff em seu prefácio para o primeiro volume desta coleção, nos fala sobre a importância desta empreitada. Afirma ele que “diversa é a composição étnica, diferentes são as regiões geográficas do país e vigora um rico sincretismo em curso que, seguramente, vai moldar toda a cultura brasileira futura. É o que faz o Brasil complexo e desafiador” (BOFF in OLIVEIRA, p. 7, 2014). Este desafio a que se refere é fundamental para a compreensão e o resgate de nossa identidade cultural, que há séculos sofre de um abafamento dominador da cultura europeia e tende a desqualificar e excluir a África e a América pré-colombiana de sua reflexão sobre si própria. Resgatar nossas raízes enquanto cultura, isto é, aqueles nossos aspectos que foram negligenciados, equivale a reconstruir nosso futuro; reconstruir nossa identidade cultural. Ainda segundo Boff, “uma nação revela já maturidade quando começa a pensar a si mesma com um olhar próprio, mesmo quando se serve de um arsenal teórico vindo de fora mas filtrado pela nossa singularidade como povo” (Ibid: 7). Me parece que não só a psicologia junguiana brasileira, mas nossa sociedade de forma mais ampla, começa a atingir tal grau de maturidade que permite pensar sobre si mesma a partir da própria singularidade enquanto povo. Faz-se necessário que a psicologia analítica, sem negligenciar suas raízes europeias, comece também a valorizar a totalidade da cultura brasileira a fim de se aproximar de um entendimento mais original e radical sobre a alma brasileira; e consequentemente ajude na construção de uma identidade cultural fundamentada em suas próprias raízes, em sua totalidade.
quarta-feira, 17 de setembro de 2014
A sombra coletiva e os linchamentos no Brasil do século XXI - Luís Paulo B. Lopes
Texto de Luís Paulo B. Lopes
Não há consenso sobre a etimologia da palavra linchamento, embora seja provável que tenha se originado a partir do comitê para manutenção da ordem do Capitão William Lynch na revolução dos Estados Unidos. Entretanto, a prática de linchamento nos Estados Unidos foi largamente utilizada no período pós-revolução, não para manter a ordem pública, mas para perseguir e assassinar minorias étnicas, como negros e indígenas, por exemplo; e acabou originando grupos racistas violentos como o Ku Klux Klan. Embora a origem da palavra linchamento seja relativamente recente na história, a prática de capturar “criminosos”, ou qualquer “desgraçado” que receba projeções da sombra coletiva, e realizar execuções públicas (com ou sem julgamento), e muitas vezes realizadas pelos próprios cidadãos, é bastante remota. Na antiguidade, era comum a prática da lapidação, apedrejamentos públicos realizados após condenação oficial. A lei mosaica, isto é, atribuída à Moisés, herói Judeu que miticamente introduziu o povo de Israel na Palestina, prevê a morte por apedrejamento em dezoito situações diferentes; como em casos de incesto, idolatria, blasfêmia, bruxaria e até rebeldia de filhos considerados irrecuperáveis pela família. Tal prática ainda hoje persiste de forma institucionalizada em alguns países muçulmanos.
As execuções públicas na Europa medieval (e mesmo na revolução francesa) tinham um componente bastante semelhante ao linchamento, pois se por um lado os enforcamentos e decapitações serviam de aviso para o resto da população não cometer os mesmos crimes, por outro lado, o escárnio público em relação aos executados transformava-os em bodes expiatórios para a sombra coletiva. O cidadão humilhado publicamente enquanto caminha em direção à execução no centro de uma praça recebe projeções da sombra de seu tempo e de sua cultura, e por esse motivo, o escárnio vai muito além do crime cometido. As reações dos “cidadãos de bem” são desproporcionais por haver uma situação arquetípica constelada; o cordeiro, ou melhor, o bode deve ser ritualisticamente sacrificado para expiar o pecado coletivo do espírito do tempo, que penetra cada individualidade isoladamente e, assim, convoca cada um à responsabilidade. No entanto, a imolação expiatória da sombra coletiva acaba prevenindo que cada cidadão individualmente assuma a própria responsabilidade em relação à redenção do Diabo. Quer dizer, na medida em que a sombra coletiva é projetada no bode expiatório, e este é ritualisticamente sacrificado em um frenesi arquetípico, o reconhecimento e a integração da própria sombra se tornam dispensáveis. Daí podermos concluir que os linchamentos se caracterizam por uma tentativa malograda de integração da sombra coletiva. Tal tentativa de integração, invariavelmente, não obterá sucesso algum, pois enquanto a sombra estiver projetada, jamais poderá ser integrada; e permanecerá somente como encenação mítica. Além disso, cabe aqui ressaltar a importância do indivíduo, tantas vezes observada por Jung, na transformação da cultura; pois a sombra coletiva atravessa cada individualidade isoladamente e convoca todos a darem uma resposta aos problemas de seu tempo. Por esse motivo cada indivíduo é, ele mesmo, o cordeiro a ser imolado para a expiação dos pecados do mundo. Deste modo, a integração da sombra coletiva se dá através de contínuas autoimolações expiatórias, isto é, do reconhecimento e integração da sombra individual, que sempre traz implícita a sombra coletiva.
quarta-feira, 3 de setembro de 2014
A individuação no atual contexto cultural - Luís Paulo B. Lopes
Há entre os junguianos a idéia de que a possibilidade da individuação ocorre no que Jung chamou de metanóia (reorientação), a virada entre a primeira e a segunda metade da vida. A individuação, portanto, seria uma tarefa para a segunda metade da vida; enquanto que na primeira metade teríamos como destino a necessidade de adaptação ao mundo exterior. Isto nunca me soou adequado, pois o jovem está, em muitos casos, bastante envolvido com questões que vão muito além do problema da adaptação ao mundo. É verdade que em alguns casos é adequado relacionarmos determinados processos psíquicos com a idade cronológica, como por exemplo, o desenvolvimento do ego, da primeira infância até a adolescência. Isto de fato parece ser um processo arquetipicamente determinado para ocorrer em períodos cronológicos mais ou menos definidos; pois o vemos se repetir sempre e de novo. É verdade também que o jovem é confrontado com o problema da adaptação ao mundo de forma bastante urgente, pois nascemos em um mundo que já é dado, em uma cultura particular, inseridos em determinada sociedade e em um ambiente familiar definido. O jovem, sem dúvida nenhuma terá que dar conta de se adaptar a este mundo.
No entanto, o homem mais velho também continua a ser confrontado com a questão da adaptação ao mundo. Principalmente em nosso tempo em que as mudanças são extremamente rápidas; e não somente no que diz respeito ao surgimento avassalador de novas tecnologias, mas também de novas formas de se relacionar e da afirmação de uma diversidade cada vez maior que antes era silenciada e excluída pela tradição; sem falar na degeneração da própria tradição. Em nosso tempo tudo muda, e rápido; o que era aceitável há uma década é considerado desprezível atualmente. A necessidade de adaptação ao mundo estará sempre colocada ao indivíduo, independente do período cronológico de sua vida. Considerar que nos adaptamos ao mundo na primeira metade da vida para depois sermos confrontados com o problema do significado, como se aquela primeira fase já estivesse superada, é não conseguir olhar para o agora.
quarta-feira, 16 de julho de 2014
A falência do gênero e suas implicações clínicas - Luís Paulo B. Lopes
Texto de Luís Paulo B. Lopes
Há inúmeros debates na contemporaneidade envolvendo a questão do gênero sexual. O que é ser homem? O que é ser mulher? Há algo de fato que determine o que é ser homem ou mulher? Seria isso determinado pela biologia? Ou o gênero é uma construção unicamente cultural? Que tipos de atravessamentos psicológicos estão envolvidos na questão da delimitação do gênero sexual? Essa é uma questão atual, mas não tão atual assim. Ainda na era da revolução industrial, com a necessidade de mão de obra para trabalhar em fábricas gigantescas, as mulheres foram convocadas a abandonar aquilo que a sociedade considerava próprio do gênero feminino para entrar no mundo masculino do mercado de trabalho. Talvez esse tenha sido o primeiro movimento feminista massivo e essas mulheres certamente não saíram impunes por transgredir uma norma social cristalizada. O feminismo enquanto ideologia, posteriormente, iria se aprofundar no questionamento do lugar da mulher na sociedade, gerando mudanças profundas em como a sociedade entende o que é ser mulher e, portanto, o que é permitido para a mulher. O movimento LGBT (ou LGBTTT) deu novo coro ao debate de gênero, com questões relativas à orientação sexual e principalmente sobre identidade de gênero. Tenho notado que esses debates atuais normalmente são inflamados, onde revolucionários tentam derrubar os sólidos muros do status quo por um lado, enquanto que outros tentam defender com todas as forças aquilo que acreditam ser fundamental para a saúde e o bom funcionamento da sociedade. A inflamação dos discursos, que chega às vias da ofensa, da agressão, de prisões e da morte, repousa no antagonismo arquetípico Senex vs. Puer; e lembram as guerras santas. Não estou na posição de defender quaisquer destas ideologias. Minha intenção é observar as implicações psicológicas massivas que esse processo de mudança social está trazendo. Ocorreram muitas mudanças sociais importantes envolvendo o lugar da mulher na sociedade, muitas ainda estão acontecendo e muitas ainda vão acontecer. Com mudanças sociais tão profundas não poderíamos esperar que os indivíduos saíssem imunes. As consequências destas mudanças começam então a inundar os consultórios dos psicólogos.
sábado, 5 de julho de 2014
Resposta à Hillman: sobre herói, ego e Self - Luís Paulo Lopes
Texto de Luís Paulo B. Lopes
Este texto é uma crítica a Hillman, ou melhor, não à Hillman, mas a questões relativas ao ego, ao herói e ao Self na psicologia arquetípica. Considero Hillman um autor que traz excelentes contribuições à psicologia e que particularmente gosto muito. No entanto, há algumas questões que, em minha opinião, merecem algumas ressalvas. Por exemplo, a definição do herói em Hillman não encontra substrato arquetípico que a justifique. O herói, para ele, está associado à usurpação do trono dos deuses pelo ego. No entanto, nos mitos não vemos o herói como alguém que sozinho consegue realizar proezas; e por isso, inversamente ao que Hillman diz, o herói não estaria relacionado ao individualismo – ao indivíduo autocentrado. É necessário voltarmos aos mitos e contos de fada para entendermos o herói, ou como diria Hillman, voltarmos à imaginação. Pois é a alma e sua potência à criação de imagens que serve de substrato fundamental para entendermos não somente o herói, mas todas as pessoas arquetípicas da alma. Pois no mundo imaginal dos mitos e contos de fada, o herói nunca obtém nada sozinho, ao contrário, aquele que tenta realizar suas façanhas sozinho, sem os deuses, sempre fracassa. Os mitos nos mostram que o herói está sempre submetido aos deuses e esse é o motivo de na mitologia grega existir o conceito de hybris, que se refere à característica dos heróis em exceder os limites impostos pelos mesmos. Mas sempre que excedem os limites divinos impostos aos mortais sofrem consequências, que lhes são impostas justamente pelos deuses, e são exatamente estas consequências que acabam botando o herói de frente para seu destino. Isso quer dizer que são também os deuses, e não somente o herói solitário, os responsáveis pelos feitos heróicos. O herói está sempre submetido aos deuses e nunca depende apenas de si mesmo. Édipo aprendeu isso com enorme pesar!
terça-feira, 13 de maio de 2014
Evolução espiritual? - Luís Paulo Lopes
Texto de Luís Paulo Lopes
Não acho apropriada a idéia de evolução espiritual enquanto uma escala hierárquica crescente. Acho praticamente, se não completamente, impossível dosar se alguém é mais "evoluído" que outrem, do ponto de vista de quem se é. Na verdade, superficialmente é fácil fazer esse julgamento com base em preceitos arbitrários, mas no fundo, ninguém está apto a julgar um suposto progresso espiritual de uma segunda pessoa. Eu concordaria com o emprego da palavra evolução somente no sentido de transformação, mas nesse caso não há hierarquia possível. Nessa perspectiva a evolução seria o próprio devir, o fluir da vida eternamente mutável. Quando a palavra evolução é utilizada para definir quem supostamente está mais “adiantado” no caminho espiritual, pode funcionar de forma nociva. Já que cria um ideal definido do que seria “a meta”, isto é, define as características de comportamento e caráter da pessoa que supostamente “chegou lá”. Esse ideal do “homem-santo” certamente varia entre diferentes grupos, mas o fato é que os praticantes podem tender a imitar o ideal de pessoa evoluída do grupo a que pertencem. E é aqui que a idéia de evolução espiritual pode fazer o oposto daquilo a que se propõe. Já que, ao invés da pessoa ser quem realmente é, passa a ser aquilo que o grupo acredita ser o ideal. Deste modo, há uma alienação de si mesma em formas artificiais, pobres e sem autenticidade. E o pior de tudo, apesar disso acredita-se que está num degrau superior da escada espiritual.
Meu ponto de vista é de que virtudes não devem ser imitadas à força, mas devem se manifestar naturalmente dentro da verdade de cada um. A imitação da virtude certamente virá acompanhada do orgulho e em público se tornará vaidade; a vaidade (que tantas vezes nos pega pelo pé) por sua vez “fecha o céu”, quer dizer, impede qualquer abertura ao sagrado. Assim, o ego se apropria da espiritualidade e a utiliza para fortalecer sua posição contra Deus; a hybris! Tenho a opinião de que as virtudes se desenvolvem a partir de um processo de amadurecimento que envolve a personalidade total. Como que um fruto doce, que precisa de uma árvore forte e sadia para poder nascer. Um fruto não pode surgir simplesmente a partir da vontade, assim como o desejo de uma virtude não tornará ninguém virtuoso. A virtude simplesmente nasce a partir de quem nós somos!
segunda-feira, 21 de abril de 2014
Páscoa: Salvação e Ressurreição - Luís Paulo Lopes
Texto de Luís Paulo B. Lopes
Cada vez mais me questiono sobre o que seria a Iluminação ou a Salvação. Acho que idealizamos um estado de perfeição, pelo menos improvável. Questiono-me se a iluminação não seria ao invés da extinção do sofrimento, a convivência pacífica com o sofrimento, o sofrer em paz. Se Deus encarnou como homem e viveu a experiência do sofrimento para se realizar, me parece que a perfeição depende do sofrimento. Cristo seria assim o ápice do desenvolvimento perfeito, o homem que sofre e ama ao mesmo tempo. Quando Jesus crucificado pergunta a seu pai eterno porque o abandonou, está expressando algo que seria estranho aos olhos da perfeição, entendida como completude. Se Ele é completo, se é o próprio Deus, porque questionaria ter sido abandonado? Nesse momento de clímax, o próprio Cristo revela sua incompletude enquanto homem. E esse me parece ser o ápice da vida de Cristo. Deus encarna e morre na cruz como um homem comum para se realizar, não como um semi-deus completo. Embora possamos pensar em Cristo como símbolo da totalidade, o terceiro elemento entre os dois bandidos também crucificados (a dualidade), temos que ter em mente que ele é humano. Seus questionamentos sobre ter sido abandonado por Deus revela de forma visceral que o Deus encarnado vive uma experiência dualística, a experiência da queda, a incompletude humana. Olha que coisa mais linda; seria a incompletude o ápice da perfeição. E não um estado idealizado de beatitude absoluta, que divide o sublime do terreno. É no amor e na compaixão, mas também no sofrimento e na morte que está a perfeição! A Salvação ou Iluminação não deve se referir a um estado de perfeição sobre-humana, mas sim a um estado em que o homem, rendido a Deus, finalmente aceita, com a totalidade de seu ser, sua humanidade. Finalmente torna-se capaz de aceitar o sofrimento e o amor. Quando, pois, almejamos um estado de iluminação, e entendemos por iluminação um estado de perfeição sobre-humana e, portanto, unilateral; estamos na verdade nos afastando cada vez mais dela, pois nos inflamamos do desejo de não sermos humanos, de sair do samsara, quando me parece ser a plena aceitação do samsara a perfeita iluminação, o Nirvana - A Salvação.
quarta-feira, 5 de março de 2014
Enteógenos e Psicologia transpessoal - Luís Paulo Lopes
Texto de Luís Paulo Lopes publicado originalmente na coluna "Portas da percepção" no blog http://hempadao.com/.
A Psicologia
Transpessoal, surgida nos anos 60, era inicialmente considerada como um
desdobramento da Psicologia Humanista. No entanto, enquanto a Psicologia
Humanista tinha como meta a auto-realização, a Psicologia Transpessoal trazia a
ideia de auto-transcendência. Esta diferença é importante e revela um dos
pressupostos básicos do pensamento transpessoal, a saber, de que a
individualidade é somente um aspecto do Ser. Além da consciência e do inconsciente
pessoal, a psique possui outros aspectos que transcendem a individualidade (daí
o nome transpessoal); aspectos esses que podem ser vivenciados através de
estados incomuns de consciência e cujo potencial heurístico e terapêutico são
impressionantes. Apesar da relação
histórica existente entre a Psicologia Humanista e a Transpessoal, em que
Abraham Maslow participou ativamente de ambas, é possível afirmar que a
Psicologia Reichiana e principalmente a Psicologia Junguiana já haviam
construído um substrato sólido que posteriormente influenciaria de forma
decisiva as teorias transpessoais. O conceito junguiano de inconsciente
coletivo, por exemplo, viria a ser largamente utilizado nas cartografias da
psique criadas pelos autores transpessoais, apesar de ter sofrido modificações.
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