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quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Individuação somente na segunda metade da vida? - J. Hillman


Texto retirado do livro "O livro do Puer" de James Hillman.

A psique parece ter seu próprio curso, seu próprio tempo. O senex, assim como o puer, pode aparecer em muitos estágios e fases e influenciar qualquer complexo. O padrão de qualquer vida dividida numa moldura ideal de dois, três, sete ou dez estágios da infância à senilidade parece confirmar a regra da entropia. A vitalidade dada no nascimento diferencia-se, esmorece e finalmente se apaga na morte. Mas a vida psíquica num indivíduo também mostra negentropia, na qual, à medida que ela se torna mais ordenada e menos aleatória, torna-se também mais imprevisível e improvável. Em outros termos, essa negentropia poderia ser chamada liberdade. portanto não podemos encaixar a vida psicológica nas condições históricas ou nas estreitas molduras biológicas de "primeira-metade/segunda-metade". Fazê-lo significaria a indicação inicial de que nós mesmos sucumbimos facilmente ao pensamento enganoso do arquétipo da divisão. 

Cura da memória e redenção do tempo - J. Hillman

Texto retirado do livro "O livro do Puer" de James Hillman.

A função específica da psique, a subjetividade que experimenta e grava padronizando as experiências historicamente, que torna a história possível e é seu a priori, foi chamada de Clio. E Clio, como a primeira filha, tem relação especial com a mãe das musas, a lembrança. [...] O nome Clio significa glória, honra, celebração e é ela quem melhor lembra as ações dos heróis. Seu interesse não está nas notícias diárias da história de caso do mundo, ou aquilo que Mircea Eliade chamou de "tempo profano". Em vez disso seu interesse está naqueles momentos nucleares únicos, momentos heróicos através dos quais o arquétipo no centro da alma é revelado redimindo eventos da cegueira dos meros fatos. Assim como nós, indivíduos, estamos atados aos fatos e nossas histórias de caso pessoais por aquilo que lembramos de nossas vidas pessoais, também nossa cultura está viciada na história do tempo profano. Um vício exige cada vez mais, cada vez mais rápido. Muito de nossa inventividade serve meramente para fazer, reunir e reproduzir eventos. [...] Precisamos de mais "informação", temos menos tempo a perder. Alcançamos até uma "história instantânea", que Arthur Schlesinger defende chamando "História Contemporânea", onde tudo aquilo que acontece a todos no cenário público deve ser registrado e aquilo que é registrado deve ser publicado - e rápido. As profanas chroniques scandaleuses - as "profanidades" - dos heróis substituem a glória de Clio.

Na prática analítica aprendemos que uma compreensão arquetípica dos eventos pode curar a fascinação compulsiva com nossa história de caso. Os fatos não mudam, mas sua ordem recebe outra dimensão através de outro mito. Eles são experimentados diferentemente; ganham outro sentido porque são contados através de outro conto. [...] Portanto, a redenção do vício na história profana pode vir da mesma forma. Essa forma demonstraria outra organização arquetípica dos eventos pelos quais sofremos. Porém essa reorganização requer primeiro a mudança na própria memória, de maneira que a cada dia perguntemos não "o que aconteceu?", mas "o que aconteceu para a alma?". Para essa maneira de lembrar os eventos, a memória necessitaria retornar à sua reminiscência de idéias primordiais, à sua associação primordial com as raízes metafóricas da experiência humana. A memória assim transformada registraria primeiro as experiências da alma e apenas secundariamente os acidentes dos eventos. Ou, melhor dizendo, poderia tomar os eventos psicologicamente, ritualmente, não mais apenas sua vítima. Através dessa cura da memória, a própria Clio poderia ser libertada de sua fascinação com a história de caso do mundo e assim ser restaurada ao seu papel de registradora e celebrante daquilo que tem significado. [...]

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

A natureza arquetípica da cor preta e o racismo - J. Hillman

Texto retirado do livro "Psicologia alquímica" de James Hillman.

Entre os povos da região ao sul do Sahara, as três cores primárias - preto-branco-vermelho [...] - formam os próprios princípios governantes do cosmo. Não são apenas palavras para cores, nomes de tons. 

Encontramos uma ideia semelhante nas três gunas da cosmologia indiana: tamas preto, rajas vermelho e sattva branco entram na composição de todas as coisas. O antropólogo Victor Turner afirma que essas três cores "fornecem uma classificação primordial da realidade". São "experiências comuns a toda humanidade", são como que "forças" arquetípicas, "biológicas, psicológicas e logicamente anteriores às classificações sociais, quinhões, clãs, totens sexuais e todo o resto". Para a cultura, preto e branco, e também vermelho, precedem e determinam o modo como a vida humana é vivida.

As afirmações de Turner separam a "cultura" da cor da "ciência da cor". Do ponto de vista cultural, as cores não são meras qualidades secundárias, redutíveis a sensações físicas nos sistemas neurológicos do sujeito que percebe. Por um lado, as cores têm a ver com a luz, reflexão, ótica e nervos; por outro, têm algo a ver com o próprio mundo. Elas são o próprio mundo, e esse mundo não é meramente um mundo colorido em função de acidentes de luz e química, ou como se fosse decorado por um Deus pintor. As cores apresentam a realidade fenomenal do mundo, e modo como ele se mostra e, como agentes operativos do mundo, são princípios formativos primários. [...]

Apenas numa visão de mundo fisicamente reduzida, ou seja, uma visão de mundo reduzida à física e pela física, pode o preto ser chamado de uma não cor, uma ausência de cor, uma privação da luz. [...]

Além disso, a definição negativa e primitiva do preto promove a moralização do par preto-branco. O preto é então definido como o não branco e é privado de todas as virtudes atribuídas ao branco. O contraste se torna oposição, até mesmo contradição, como se o dia fosse definido como uma não noite, e um blackberry definido como um não whiteberry.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Alquimia e redenção da palavra - J. Hillman

Texto retirado do livro "Psicologia alquímica" de James Hillman.

A linguagem conceitual, entretanto, não é uma metáfora autoevidente. Ela é muito contemporânea para ser transparente; estamos vivendo bem imersos nela, e seu mito está acontecendo em tudo que se refere a nós - então ela não tem um senso metafórico embutido. Eu certamente não sei, e não posso perceber, que eu não seja verdadeiramente composto de um ego e um Self, de uma função sentimento e um instinto de poder, de posições depressivas e ansiedades de castração. Isto soa literalmente para mim e, a despeito de minha própria experiência em usar esses termos, há uma inutilidade assombrosa neles. O nominalismo fez com que desacreditássemos em todas as palavras - o que há em um nome? - pois elas são somente "palavras", ferramentas; qualquer outra serviria da mesma forma. Elas não tem substância. 

Mas nossa linguagem psicológica se tornou literalmente real para nós, apesar do nominalismo, porque a psique precisa demonizar e personificar, o que na linguagem torna-se a necessidade de substancializar. A psique anima o mundo em que habita. A linguagem é parte dessa atividade de animação (por exemplo, o discurso onomatopeico com o qual supõe-se que a linguagem "começou"). Se a minha linguagem não preencher essa necessidade de substancializar, a psique vai substanciar de qualquer modo, inesperadamente, endurecendo meus conceitos em coisas físicas ou metafísicas.

Devo insistir que não estou propondo um cancelamento de nossos conceitos e uma restituição dos neologismos arcaicos da alquimia como um novo esperanto para nossa prática e para nossos assuntos. [...] Não é um retorno literal para a alquimia o que é necessário, mas uma restauração do modo alquímico de imaginar. Pois desse modo restauramos a matéria em nosso discurso - e isto, afinal de contas, é nosso objetivo: a restauração da matéria imaginativa, não da alquimia literal. [...]

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Mitologia e psicopatologia - J. Hillman

Texto de James Hillman retirado do livro "Re-vendo a psicologia"

Ao supor que uma doença psicológica é a encenação de uma fantasia patologizante, o procedimento da psicologia arquetípica é a busca pelos archai, os princípios regentes, ou raízes metafóricas, da fantasia. A psicologia arquetípica tenta dar sentido ao patologizar através da parecença com um pano de fundo arquetípico, de acordo com o princípio postulado por Plotino - "Todo o saber vem da semelhança" - e seguindo o método que ele também iniciou chamado "reversão" (epistrophé) - a ideia de que todas as coisas desejam retornar ao original arquetípico do qual são cópias, e dos quais derivam. O patologizar, da mesma forma, é examinado em termos de semelhança, e imaginado como abrigando a intenção de retornar a um background arquetípico. 

Qual padrão arquetípico é como meu comportamento e minha fantasia presentes? Com quem sou parecido naquilo que faço e sinto? "Semelhança" aqui se refere à ideia de que aquilo que é concretamente manifestado na psique individual tem sua semelhança num punhado de parecenças arquetípicas onde o patologizar que me acontece encontra lugar, faz sentido, tem necessidade, e para as quais o patologizar pode ser "revertido". Essas parecenças arquetípicas são muito bem apresentadas nos mitos em que as pessoas arquetípicas às quais me assemelho e os padrões que estou representando têm seu lar autêntico. 

É para esse reino mítico que retorno todas as fantasias. A autenticação das fantasias de doença não está na natureza, mas na psique; não na doença literal, mas na doença imaginal; não na psicodinâmica de configurações reais, do passado ou do presente, mas nas figuras míticas que são as eternas metáforas da imaginação, os universais da fantasia. Essas figuras míticas, como minhas aflições, são "trágicas, monstruosas e não naturais", e seus efeitos sobre a alma, como minhas aflições, "perturbam ao excesso". Apenas na mitologia a patologia recebe um espelho adequado, já que os mitos falam com a mesma linguagem distorcida e fantástica. 

Patologizar é um modo de mitologizar. Patologizar nos arranca do imediatismo cego, distorcendo nosso foco no natural e no real ao forçar-nos a perguntar sobre o que há dentro e por trás deles. A distorção é, ao mesmo tempo, uma intensificação e uma nova clarificação, relembrando a alma de sua existência mítica. Na agonia do patologizar, a psique passa por uma reversão a um estilo mítico de consciência. A psicanálise enxergou isto, mas o condenou como regressão a níveis mágicos, primitivos. Porém, a psique reverte-se não apenas para escapar da realidade, como também para encontrar outra realidade na qual o patologizar faz um novo sentido. 

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Alma - J. Hillman

Texto retirado do livro "Re-vendo a psicologia" de James Hillman

A psicologia sempre tem a oportunidade de enxergar através de suas principais convicções e posições. Ela pode levar a reflexão psicológica para ela mesma. Ela pode então dissolver a crença literal em pessoas ao repersonificá-las em metáforas. Então, a personalidade pode ser imaginada de um novo jeito: que sou uma pessoa impessoal, uma metáfora encenando múltiplas personificações, mimético às imagens no coração que são meu destino, e que esta alma que me projeta tem profundezas arquetípicas que são estranhas, inumanas e impessoais. A minha assim chamada personalidade é uma persona através da qual a alma fala. Está sujeita à despersonalização e não é minha, mas depende totalmente da bênção da crença em mim mesmo, uma fé dada através da anima no meu valor como portador de alma. Não sou eu quem personifico, mas a anima que me personifica, ou faz-se a si mesma através de mim, dando à minha vida o seu (dela) sentido - seu intenso sonhar acordado em meu "eu-mesmo;" e "eu", um vaso psíquico cuja existência é uma metáfora psíquica, um ser "como-se", no qual cada crença é um literalismo, exceto a crença na alma cuja fé me pressupõe e me torna possível como uma personificação da psique.