terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Tormento da oscilação na eternidade - O Sátiro

Fazendo esforço para memorizar a receita que o Sátiro acabara de lhe dizer, Pedro ficou um tempo em silêncio, para tentar absorver cada palavra que ouviu. O Sátrio lentamente se aproximou. Caminhava tão silenciosamente que não era possível ouvir nem ao menos o barulho das folhas em que pisava. O estranho ser com chifres levantou o dedo e tocou levemente a testa do jovem. Subitamente Pedro sentiu-se tonto, o chão em seus pés começou a girar tão rápido que a floresta virou um borrão em seu campo visual. Sentiu-se como se estivesse no centro de um furacão. Mas ali no centro permanecia imóvel. Gradualmente o chão deixou de girar. Pedro sentiu-se velho e assumiu uma postura encurvada. Olhou para as próprias mãos e percebeu que estavam muito enrugadas. A floresta havia desaparecido e percebeu que estava em sua casa. Havia poeira e teia de aranha em todos os cantos. Tudo estava sujo e bagunçado. O jovem, que agora estava velho, pensou em arrumar toda aquela bagunça, mas sentiu uma preguiça tão forte que parecia penetrar-lhe em cada músculo de seu corpo. Ficou ali onde estava, incapaz de dar um passo à frente. Seu estomago roncou em um estrondo, e percebeu que estava faminto. Dali de onde estava podia ver alguns vegetais sobre a mesa da cozinha, mas tudo que conseguiu fazer foi sentar-se, sem forças, na cadeira de balanço que estava logo atrás de si. Estranhamente a cadeira começou a balançar sozinha, e mesmo com as tentativas de Pedro em parar seu movimento, continuava balançando ininterruptamente para frente e para trás. Sempre que a cadeira ia para frente, sentia-se encorajado a levantar para preparar algo que matasse sua fome; mas sempre que a cadeira ia pra traz sentia como se uma força sobrenatural tivesse roubado toda sua energia e ficava impossibilitado de se levantar. Subitamente, Pedro percebeu que havia um homem com roupas e chapéu quadriculados, como um tabuleiro de xadrez, no canto da sala o observando. De seu chapéu pendiam três pontas com um guizo em cada extremidade. Era uma espécie de bobo, que não parava de rir observando Pedro oscilando, sem alternativa, para frente e para traz na cadeira de balanço. Pedro sabia que conhecia aquele homem de algum lugar, mas não era capaz de se lembrar de onde. Sua risada eufórica dava a impressão de que era um lunático, e suas roupas não ajudavam a dar a entender o contrário. Mas ele parecia ser a menor de suas preocupações, pois sua fome era profunda e suas forças haviam deixado seu corpo. Pedro, o jovem velho, perdeu as contas de quantas vezes a cadeira balançou para frente a pra trás. Algumas centenas, ou talvez milhares. Permaneceu ali, alternando desesperado entre a vontade de se levantar e a constatação amarga de que não tinha forças para tal. O tempo passou. Primeiro dias, depois anos, quem sabe décadas. Não era mais capaz de dizer. Pedro estava tão magro que ninguém que o conhecesse seria capaz de reconhecê-lo. Sua pele parecia estar aderida a seus ossos, como se não houvesse músculo algum entre eles. Seu tormento não tinha fim. O lunático com roupa de bobo permaneceu durante todo esse tempo no canto da sala, observando e rindo como louco de Pedro, que tinha a estranha sensação de que ele deveria estar por trás daquele tormento sem fim. Quando o tempo se transformou em eternidade, desejou morrer para que seu tormento pudesse acabar. Mas estranhamente, apesar de não comer durante toda a eternidade e estando tão fraco que mal podia se mexer, o sopro de vida não o deixava definitivamente. Em certo momento Pedro se perguntou se o motivo de não morrer, apesar disso tudo, seria pelo fato de já estar morto. Foi exatamente no momento em que Pedro se questionou sobre isso, que o louco com roupas xadrez interrompeu sua risada perpétua. 

Famintos insaciáveis - O Sátiro


 – Não é prudente pisar nas sombras de seus amigos. Esteja sempre atento à posição do sol no céu para que cuidadosamente desvie das sombras deles que são projetadas no chão. Só pise na sombra de algum deles, se gentilmente te convidarem para se aproximar. E ainda assim, pise cuidadosamente somente com o pé direito. Se for feito corretamente, isso pode funcionar como o fogo de um forno que cozinha um peixe saboroso para ambos comerem. Esse é um alimento que nutre! Mas, embora você tome todo cuidado para não pisar na sombra deles, não poderá evitar que eles eventualmente pisem na sua. E quando isso acontecer esteja atento! Pois terá a chance de se sentar mais perto do fogo deste forno e suas mãos poderão alcançar o peixe que está sendo assado. Isso acontecerá muitas vezes em sua vida, mas se não estiver atento e perder essas oportunidades, pode ficar tão distante do fogo a ponto de congelar de frio; e o peixe que poderia matar sua fome estará tão distante que não sentirá nem o cheiro. Muitas pessoas estão mortas de fome apesar de estarem tão gordas quanto hipopótamos! Comem somente coisas cruas, sem gosto ou nutrientes. Engordam, é verdade, mas morrem de fome e permanecem perambulando famintos, comendo qualquer porcaria, mas sem nunca se sentirem saciados. Imagino que não queira ser como esses coitados que morrem de fome e vivem mortos em busca de algum alimento que os saciem, comendo de tudo mas sem nunca encontrar algo que realmente mate suas fomes. Há muitos desses por aí, e para se tornar um deles basta estar desatento. Estar atento para aquilo que o nutre verdadeiramente é o segredo pra não cair na desgraça que eles caíram. Mas há as miragens conforme já lhe disse. Estar cuidadosamente atento, com o foco naquilo que é significativo te mostrará o caminho da vida viva.

sábado, 27 de dezembro de 2014

O pai devorador - Murray Stein


Texto de Murray Stein. 
Obs: Não tenho certeza sobre a fonte, por isso este texto está sem referência bibliográfica.

A mãe devoradora tornou-se uma realidade arquetípica bastante conhecida no mundo da psicologia profunda. Jung descreve a personalidade devorada pela mãe em seu aspecto neurótico (CW 9,11 § § 20-22); suas formas extremas aparecem como psicoses endógenas, a esquizofrenia e a psicose maníaco-depressiva. Já o arquétipo do pai devorador não é tão familiar. Nesse caso, poderíamos dizer que sua forma extrema seria uma psicose social.

Se o arquétipo paterno tem como um polo o pai guardião de seus filhos e poderosa fortaleza contra as ameaças do mundo exterior, tem como outro o pai devorador, na sua rígida insistência quanto a formas convencionais de pensamento, de sentimento e comportamento. O reflexo fenomenológico desse lado negativo do arquétipo do pai é uma consciência vinculada e submersa em convenções e hábitos, e um respeito ao dever definido pelas normas coletivas prevalecentes. Um dilúvio gástrico de valores, padrões de pensamento, gostos, disposições, atitudes e opiniões da cultura predominante dissolve qualquer traço de experiência individual e de reação espontânea.

A história “A Morte de Ivan Ilitch”, de Leon Tolstoi, constitui um retrato magistral de uma consciência devorada pelo pai. Tolstoi apresenta Ivan como :

"filho de um oficial cuja carreira em Petersburgo, através de vários ministérios e departamentos, foi do tipo que conduz um homem a posições de que, devido ao seu longo tempo de serviço e ao cargo oficial a que chegou, não pode ser dispensado, embora seja óbvio que não sirva para executar nenhum serviço útil, e para quem, em conseqüência, são especialmente criados postos que, embora fictícios, fazem jus a salários nada fictícios, de seis a dez mil rublos, nos quais permanece até a idade avançada". 

(Leon Tolstoi, The Cossacks, Penguin Classics, 1960, pág. 110 ). 

Na história, não se faz menção à mãe de Ivan. Seu pai é claramente uma representação do Senex na forma do velho rei que deveria morrer mas continua a reinar obstinadamente. 

Religiosidade como expressão do inconsciente - C. G. Jung

Texto retirado do livro "Cartas de C. G. Jung" Vol. II.
Carta de Jung enviada a Piero Cogo em 21/09/1955.

Prezado senhor Cogo,

O senhor não pode imaginar, com base numa reportagem de jornal, o que significa quando eu digo que se pode saber sobre Deus, sem precisar fazer o esforço, muitas vezes bastante infrutífero, para crer. [Jung faz alusão a uma entrevista que havia concedido a uma revista italiana onde dizia que "não precisava crer em Deus, mas sabia de sua existência]. Como o senhor sabe sou psicólogo e me ocupo principalmente com a pesquisa do inconsciente. Neste capítulo entra também, entre outras coisas, a questão religiosa. Se quiser entender-me corretamente, deverá conhecer primeiramente os resultados de minha psicologia. Não posso relatá-los numa carta. Sem um conhecimento profundo da psique humana, estas observações, tiradas do contexto, são totalmente incompreensíveis. Não se pode esperar dos jornalistas que eles se preocupem com os funamentos do nosso pensar. 

Do ponto de vista psicológico, a religião é um fenômeno psíquico que existe de modo irracional, assim como o fato de nossa fisiologia ou anatomia.  Se faltar esta função, a pessoa humana, como indivíduo, estará sem equilíbrio, pois a experiência religiosa é expressão da existência e funcionamento do inconsciente. Não é verdade que possamos ter êxito só com a razão e a vontade. Ao contrário, estamos sempre sob o efeito de forças perturbadoras, que atravessam a razão e a vontade, isto é, são mais fortes do que as últimas duas. Por isso, pessoas altamente racionais, e precisamente estas, sofrem de perturbações que não conseguem administrar com a vontade ou a razão. Desde tempos imemoriais, as pessoas designavam como divino ou demoníaco aquilo que sentiram ou experimentaram como sendo mais forte do que elas. Deus é o mais forte delas. Esta definição psicológica de Deus nada tem a ver com a definição dogmático-cristã, mas descreve a experiência de um Outro, muitas vezes numinoso opositor, que coincide de forma impressionante com a "experiência histórica de Deus". Conheci um professor de filosofia que acreditava poder viver bem só com a razão. Mas "Deus" lhe impôs uma fobia de carcinoma, que ele não conseguia superar e que transformou sua vida num tormento. A desgraça foi que ele não soube ser simples o suficiente para admitir que a fobia era mais forte do que sua razão. Tivesse sido capaz de admitir isso, teria encontrado um caminho para submeter-se racionalmente ao mais forte. Mas, em sua soberba, não entendeu o caminho de sua superstição racionalista, o perigo que o ameaçava e o sentido inerente a esta ameaça. A atuação do divino é sempre uma espécie de dominação, não importa a forma que assuma. Nossa razão é um presente maravilhoso ou uma conquista nada desprezível, mas ela só cobre um aspecto da realidade, que também consiste de dados irracionais. As leis da natureza não são axiomáticas, mas apenas probabilidades estatísticas. Mas a realidade, bem como nossa psique, consiste sobretudo de dados irracionais. Por isso é impossível uma mecanização da vida psíquica. Como os primitivos, também nós estamos entregues a um mundo escuro e às suas imprevisíveis possibilidades. Por isso precisamos da religião, ou seja, de cuidadosa atenção aos acontecimentos (religio é derivada de religere, e não de religare) e não de sofismas, supervalorização do intelecto racional [religere = considerar cuidadosamente, examinar de novo, refletir bem; religare = amarrar de novo, religar]. [...]

Com elevada consideração,
(C.G. Jung)

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

O inconsciente coletivo - C. G. Jung

Texto retirado do livro "Cartas de C. G. Jung" Vol. II.
Trecho de carta de Jung enviada ao Pastor Max Frischknecht em 08/02/1946.

Prezado Pastor, 

[...] Li com interesse e prazer seu estudo cuidadoso sobre as visões aterradoras do beato Bruder Klaus e agradeço de coração. Concordo plenamente com seus comentários até o ponto em que levanta a questão sobre o fundamento transcendental da visão. Sua alternativa é "Deus metafísico" ou "o próprio inconsciente" do Bruder Klaus. Este é o caput draconis [cabeça do dragão]! Inadvertida e sub-repticiamente o senhor me imputa uma teoria que venho combatendo há dezenas de anos, isto é, a teoria de Freud. Como se sabe, Freud deriva a "ilusão" religiosa do "próprio" inconsciente do indivíduo, portanto do inconsciente pessoal. Há razões empíricas que contradizem este ponto de vista. Eu as reuni na hipótese do chamado inconsciente coletivo. O inconsciente pessoal caracteriza-se pelo fato de que seus conteúdos são formados pessoalmente e são ao mesmo tempo aquisições individuais que variam de pessoa para pessoa, tendo cada qual o seu "próprio" inconsciente. O inconsciente coletivo, porém, apresenta conteúdos que são formados pessoalmente apenas em grau ínfimo e, no essencial, em grau nenhum; não são aquisições individuais, mas são essencialmente os mesmos em toda parte e não variam de pessoa para pessoa. Este inconsciente é como o ar que é sempre o mesmo em toda parte, que é respirado por todos e a ninguém pertence. Os conteúdos (chamados arquetípicos) são condições prévias ou esquemas da constituição psíquica geral. Eles têm um esse in potentia [ser em potência] e in actu [no ato], mas não in re [como coisa], pois como res [coisas] já não são o que eram, mas tornaram-se conteúdos psíquicos. São em si imperceptíveis, não representáveis (pois antecedem toda representação), em toda parte e "eternamente" os mesmos. Por isso só existe um inconsciente coletivo que é idêntico a si mesmo em toda parte, do qual todo o psíquico recebe sua forma antes de ser personalizado, modificado, assimilado, etc. por influências externas.

Para tornar mais compreensível este conceito um tanto difícil, gostaria de trazer um paralelo da mineralogia, isto é, a chamada estrutura do cristal. Esta estrutura representa o sistema axial do cristal. Na solução-mãe ela é invisível, como se não existisse, mas ela existe, agregando-se primeiramente os íons ao redor dos pontos axiais (ideais) de intersecção e, depois, as moléculas. Há somente uma estrutura do cristal para milhões de cristais da mesma composição química. Nenhum cristal individual pode falar de sua estrutura, pois ela é a única e a mesma precondição de todos (e nenhum deles a realiza perfeitamente!). Ela é a mesma em toda parte e "eternamente".

domingo, 21 de dezembro de 2014

Relatividade do livre arbítrio - C. G. Jung

Texto retirado do livro "Cartas de C. G. Jung" Vol. II.
Cartas de Jung enviada ao Reverendo S.C.V. Bownam em 10/12/1953.

Dear Sir,

O seu problema do liberum arbitrium [livre arbítrio] tem obviamente vários aspectos, que eu não saberia como abordar nos limites de uma carta. Só posso dizer que, até onde a consciência chega, a vontade é entendida como sendo livre, isto é, que o sentimento de liberdade acompanha nossas decisões, não importando se elas são realmente livres ou não. Esta última questão não pode ser decidida empiricamente. Onde a pessoa não está consciente aí obviamente não pode haver liberdade. Através da análise do inconsciente amplia-se o horizonte da consciência a cresce automaticamente o grau de liberdade. Uma consciência plena significaria uma liberdade e responsabilidade igualmente plenas. Se os conteúdos inconscientes que se aproximam da esfera da consciência não foram analisados e integrados, então a esfera da liberdade fica diminuída pelo fato de tais conteúdos serem ativados e ganharem mais influência compulsiva sobre a consciência do que se fossem totalmente inconscientes. Não creio que haja maiores dificuldades nesta linha de abordagem. Parece-me que a verdadeira dificuldade começa com o problema de como lidar com os conteúdos integrados, que antes eram inconscientes. Isto, porém, não pode ser tratado numa carta.

Esperando vê-lo na primavera, sou
Yours sincerely,
(C.G. Jung)

sábado, 20 de dezembro de 2014

Regressão e fascinação arquetípica na neurose e na psicose - C. G. Jung

Texto retirado do livro "Cartas de C. G. Jung" Vol II.
Trecho de carta de Jung enviada ao Dr. John W. Perry em 08/02/1954.

Dear Perry, 

[...] Em primeiro lugar, a regressão que ocorre no processo de renascimento ou integração é em si um fenômeno normal, podendo ser observado também em pessoas que não sofrem de nenhuma psicopatia. No caso de uma constituição esquizóide, observa-se quase o mesmo, apenas com a diferença de que há uma tendência marcante do paciente ficar preso ao material arquetípico. Neste caso, repete-se sempre de novo o processo de renascimento. Esta é a razão por que a esquizofrenia clássica desenvolve condições estereotipadas. Até certo ponto, a experiência é a mesma com indivíduos neuróticos. Isto é assim porque o material arquetípico tem uma estranha influência fascinante que tenta assimilar a pessoa por inteiro. Ela procura identificar-se com alguma das imagens arquetípicas que são características do processo do renascimento. É por isso que os casos esquizofrênicos apresentam um comportamento de certo modo bem infantil. Pode-se observar quase o mesmo em pacientes neuróticos; desenvolvem inflações por conta da identificação com imagens arquetípicas ou desenvolvem um comportamento infantil por conta da identidade com a criança divina. Em todos estes casos a dificuldade real será libertar os pacientes da fascinação (através do material arquetípico). Os casos esquizóides bem como os casos neuróticos repetem muitas vezes sua história pessoal da infância. Isto é um sinal favorável na medida em que é uma tentativa de voltar a crescer no mundo, como eles já o fizeram antes, ou seja, em sua infância. (...)


Via de regra não é preciso levar os pacientes a que revivam suas reminiscências infantis; geralmente eles o fazem por si mesmos, pois é um mecanismo inevitável e, como eu disse, uma tentativa teleológica de crescer novamente. Se observar apenas o material que os pacientes produzem, verá que eles entrarão forçosamente em suas reminiscências, costumes e maneiras infantis e que projetarão especialmente as imagens dos pais. Se houver uma transferência, o senhor ficará envolvido e integrado na atmosfera familiar do paciente. [...] Quando deixamos que o inconsciente siga o seu caminho natural, então podemos estar certos de que virá à tona tudo o que o paciente precisa saber; também podemos estar certos de que tudo o que tiramos do paciente por insistência em bases teóricas não será integrado na personalidade do paciente, ao menos não como valor positivo, mas no máximo como resistência duradoura. Nunca lhe ocorreu que em minha análise pouco se fala de "resistência" [...]?

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Desmistificando os arquétipos e o inconsciente coletivo - C. G. Jung

Texto retirado do livro "Cartas de C. G. Jung" Vol II. 
Carta de Jung enviada ao Professor G.A. van den Bergh von Eysinga.

Dear Sir, 

Antes de mais nada, não sou filósofo e meus conceitos não são filosóficos e abstratos, mas empíricos [...]. O conceito em geral mal compreendido é o de arquétipo, que cobre certos fatos biológicos, mas que não é uma idéia hipostasiada. O "arquétipo" é praticamente sinônimo do conceito biológico de "padrão comportamental" (behaviour pattern). Mas como este designa principalmente fenômenos externos, escolhi o termo "arquétipo" para o "padrão psíquico" (psychic pattern). Não sabemos se o pássaro tecelão contempla uma imagem interna ao seguir um modelo imemorial e hereditário na construção de seu ninho; mas, pelo que sabemos da experiência, nenhum pássaro tecelão inventou seu ninho. É como se a imagem da construção do ninho tivesse nascido com o pássaro. 

Como nenhum animal nasce sem os seus padrões instintivos, não existe razão para supormos que o ser humano tenha nascido sem suas formas específicas de reação fisiológicas e psicológicas. No mundo inteiro os animais da mesma espécie apresentam os mesmos fenômenos instintivos, assim também o ser humano apresenta as mesmas estruturas arquetípicas, onde quer que ele viva. Não há necessidade de ensinar ao animal procedimentos instintivos; também o ser humano possui suas formas psíquicas básicas, que ele repete espontaneamente, sem tê-las aprendido nunca. Na medida em que possui a consciência e a capacidade da introspecção, também recebe a possibilidade de perceber suas estruturas instintivas na forma de imagens arquetípicas. Como é de se esperar, estas representações são praticamente universais (cf., por exemplo, a identidade notável das estruturas xamanistas). Também pode acontecer que surjam de novo e espontaneamente tradições na psique da pessoa, que haviam sido totalmente esquecidas. Este fato atesta a autonomia dos arquétipos. 

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Deus e Imagem de Deus: Psicologia e religião - C. G. Jung

Texto retirado do livro "Cartas de C. G. Jung" Vol. II.
Trecho de carta de Jung enviada ao Pastor W. Niederer em 01/01/1953.

Prezado Pastor!

[...] Meu interesse estava, em primeiro lugar, em entender eu mesmo o sentido da mensagem cristã; em segundo lugar, transmitir este entendimento aos meus pacientes que sentiam uma necessidade religiosa; e, em terceiro lugar, salvar o sentido dos símbolos cristãos em geral.

[...] Critico apenas nossas concepções de Deus. Eu não sei o que Deus é em si. Em minha experiência só há fenômenos psíquicos que, em última análise, são de origem desconhecida, pois a psique em si é irremediavelmente inconsciente. Todos os meus críticos ignoram os limites epistemológicos que eu respeito claramente. Assim como tudo o que percebemos é fenômeno psíquico e, portanto, secundário, o mesmo acontece com toda a experiência interior. Nós deveríamos ser realmente modestos e não imaginar que podemos dizer qualquer coisa de Deus em si. Defrontamo-nos na verdade com enigmas terríveis. 

Devemos estar conscientes de que existe um inconsciente. Eu não ouso formular o que o teólogo faz, mas o que eu faço é tentar tornar as pessoas suficientemente conscientes para que saibam onde podem querer e onde se confrontam com a força da um não-eu. Na medida em que posso observar os efeitos desse não-eu, também é possível para mim fazer afirmações sobre ele. Não tenho nenhum meio cognitivo real (apenas decisões arbitrárias) que me permitem distinguir o não-eu em si incognoscível daquilo que os homens vêm chamando de Deus (ou deuses, etc.) desde tempos imemoriais. Assim, por exemplo, parece-me que o supremo arquétipo do si-mesmo tem um simbolismo idêntico ao da imagem tradicional de Deus. Para mim é incompreensível como se poderia entender tudo isso sem o conhecimento da psicologia do inconsciente ou sem o autoconhecimento. Na psicologia só se entende aquilo que se experimentou ou vivenciou. 

O arquétipo é a última coisa que posso entender do mundo interior. Com isso não se nega nada do que ainda poderia estar ali dentro.


quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Viver sob a cruz de Cristo ou carregar a própria cruz? - C. G. Jung

Texto retirado do livro "Cartas de C. G. Jung" Vol. II.
Trecho de carta enviada à pastora Dorothee Hock em 03/07/1952.

Prezada senhorita Hock,

[...] Sou da opinião de que a Bíblia foi escrita por pessoas humanas e, por isso, é "mitológica", isto é, antropomórfica. Nela Deus é tornado evidente, mas não visível. Isto seria demais para a nossa insuficiência humana, mesmo que possamos vê-lo em sua forma encarnada. Esta é a μορθή δούλου [forma de servo], depois de realizada a quenose [esvaziamento], portanto também a figura atestada pelo paganismo do κάτοχος [prisioneiro] e do "servo de Deus" do Antigo Testamento, ou do herói fracassado e sofredor como Édipo ou Prometeu. [...]

Cristo instiga a pessoa para dentro do conflito impossível. Ele mesmo se levou exemplarmente a sério e viveu sua vida até o amargo fim, sem atentar para as convenções humanas e em oposição à sua tradição legalista, como um herege perigosíssimo aos olhos dos judeus e como um louco aos olhos de seus familiares. E nós? Nós imitamos a Cristo e esperamos que ele nos livre de nosso próprio destino. Nós seguimos como ovelhinhas o pastor, naturalmente para boas pastagens. Não se fala nada sobre unir o nosso em cima com o embaixo! Ao contrário, Cristo e sua cruz nos libertam de nosso conflito, que nós deixamos simplesmente como está. Nós somos fariseus fiéis à lei e à tradição; enxotamos a heresia e só pensamos na imitatio Christi, mas não na realidade que nos foi imposta, na união dos opostos em nós; preferimos acreditar que Cristo já o fez por nós. Em vez de assumirmos a nós mesmos, isto é, nossa cruz, descarregamos sobre Cristo os nossos conflitos não resolvidos. Nós "nos colocamos debaixo de sua cruz", mas de modo nenhum sob nossa própria. Quem faz esta última parte é um herege, auto-salvador, "psicanalista" e sabe Deus o que mais. A cruz de Cristo foi carregada por ele mesmo, foi sua própria. Colocar-se debaixo da cruz que outro carregou é bem mais fácil do que carregar sua própria cruz sob o escárnio e desprezo dos que nos cercam. No primeiro caso, é permanecer direitinho, dentro da tradição e ser elogiado como sendo piedoso. Isto é farisaísmo bem organizado e extremamente anticristão. Somente é cristão quem vive no sentido e espírito de Cristo. Quem imita a Cristo e tem, por assim dizer, a insolência de querer levar a cruz de Cristo, quando não consegue levar a sua própria, ainda não entendeu, ao meu ver, nem mesmo o ABC da mensagem cristã.